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Concílio de Constantinopla: (meias-)verdades e (meias-)mentiras

6 de janeiro de 2012 3 comentários
Se o cristianismo primitivo era reencarnacionista, como alegam muitos espiritualistas, então vem uma pergunta: “por que ele deixou de ser?” A resposta comumente dada é que a reencarnação foi banida do cristianismo no II Concílio de Constantinopla (ou V Concílio Ecumênico), convocado em 553 d.C. pelo imperador do Oriente, Justiniano. Ele teria tomado essa iniciativa a mando de sua esposa Teodora, uma ex-prostituta que mandara matar 500 colegas profissão para apagar seu passado. Para que o povo não a ameaçasse com castigos em outras vidas, ela teria feito a cabeça do marido para banir a reencarnação condenando em Concílio seu principal teólogo: Orígenes de Alexandria.

Mas teria realmente Orígenes ensinado a reencarnação? Era essa doutrina moeda corrente no cristianismo do século sexto? Teodora mandou matar mesmo 500 prostitutas? Teria ela algo a ver com o V Concílio? Tais são as perguntas que serão respondidas nos artigos seguintes e para isso foram realizadas as pesquisas que quase nenhum espiritualista se dignou a fazer.

E um destaque para:

O Sistema Origenista

6 de janeiro de 2012 1 comentário
Há alegações pra lá de forçadas, em geral feitas por seitas Nova Era, de que Orígenes teria pregado a reencarnação. São feitas muitas especulações a partir da leitura parcial deste filósofo cristão, que fazem vista grossa aos pontos críticos de sua doutrina (que não lhes interessam, óbvio). Ele crê na preexistência da alma antes do nascimento e que elas se encontravam primordialmente num estado de igualdade. Só que, ao contrário do espiritismo, as almas não começavam simples e ignorantes, mas numa espécie de situação angelical; afinal:

Quando no começo Ele criou aqueles seres que desejava criar, i.e, de natureza racional, Ele não tinha motivo algum para criá-las de maneira diferente que a em nome de Si mesmo, i.e., Sua divindade. Como então Ele foi a causa das criaturas que viriam a ser criadas, nas quais não havia nenhuma variação, nem mudança, nem ânsia por poder, Ele criou todas das quais fez iguais e similares, porque não havia nEle nenhuma razão para produzir variedade ou diversidade. Mas como essas criaturas racionais por si só (…) estavam dotadas de livre-arbítrio, esta liberdade de escolha incitou cada uma a progredir a Deus por imitação, ou reduzir-se ao erro pela negligência.

De Principiis, livro II, cap IX, VI

Pelo uso do livre arbítrio, elas se cansavam de sua felicidade e se rebelavam, daí a queda delas. Haveria diferentes níveis de queda, seguindo uma gradação: anjos, estrelas (supondo que elas tivessem pensamento), homens e demônios. Tais posições poderiam ser desfeitas, visto que o livre-arbítrio dado poderia permutá-las. Aqui entra o cerne da pregação origenista: o conceito de “aeon” – era – cada mundo corresponderia a uma delas e nossas era atual seria especial no sentido nela ter ocorrido o sacrifício de Cristo, o que acelerou a restauração de todas as coisas. Isto introduz o conceito de “salvação” no sistema origenista.

Mas quanto a este mundo, que é o próprio considerado uma era, diz-se ser a conclusão de muitas eras. Agora que o santo apóstolo ensina que na era que precedeu esta, Cristo não sofreu, nem mesmo ainda na era que precedeu aquela, e não sei se sou capaz de enumerar o número de eras passadas que Ele não sofreu. Mostrarei, porém, de quais palavras de Paulo eu cheguei a este entendimento. Diz ele: “Mas agora na consumação das eras [tempos], Ele se manifestou para tirar o pecado pelo sacrifício de Si mesmo”. Visto que Ele diz ter sido feito vítima e na consumação das eras manifestou-se para tirar o pecado. Agora após esta era, que é formada pela consumação de outras eras, haverá outras eras por seguir, aprendemos claramente do próprio Paulo, que diz: “nas eras [tempos] vindouras Ele deve mostrar a extraordinária riqueza de Sua graça na Sua bondade para conosco” (Ef. 2.7). Ele não disse “na era vindoura”, nem “nas duas eras vindouras”, daí infiro que, por esta linguagem, muitas eras são indicadas. Agora, se há algo maior que eras, de forma que certas eras devam ser compreendidas entre os seres criados, mas entre outros seres que excedem e ultrapassam as criaturas visíveis, (eras ainda maiores) (que talvez seja o caso na restituição de todas as coisas, quando o universo inteiro virá a um término perfeito), talvez o período em que a consumação de todas as coisas ocorrerá deva ser entendido como algo mais que uma era. Mas aqui a autoridade da sagrada Escritura me persuade ao dizer “Por uma era e mais” (In sæculum et adhuc ). Agora esta palavra “mais” indubitavelmente significa algo maior que uma era; e veja se aquela expressão do Salvador “Estarei onde estou, que estes também estejam comigo e assim como Eu e Tu somos um, que estes sejam um em Nós” (cf. Jo 17:20-22), pode não parece significar algo mais que uma era ou eras, talvez mesmo mais que eras de eras – isto é, aquela época quando todas as coisa que agora são não estiverem mais em uma era, mas quando Deus estiver em todos.

De principiis, Livro II, III. 5.

Ao fim de cada era, haveria uma ressurreição e um julgamento final.

Nosso entendimento dessa passagem é que, na verdade, o apóstolo, desejando descrever a grande diferença entre os que reerguem em glória, i.e., dos santos, tomou emprestado a comparação dos corpos celestes, dizendo “Uma é a glória do sol, outra a glória da lua, outra a glória das estrelas”. E de novo desejando nos ensinar a diferença entre os que virão à ressurreição sem ter se depurado nesta vida, i.e., os pecadores, tomou emprestado uma explanação das coisas terrestres, dizendo, “há uma carne dos pássaros, outra dos peixes”. Pois coisas celestes são merecidamente comparadas aos santos e as terrenas aos pecadores. Estas declarações são feitas em resposta aos que negam a ressurreição dos mortos, i.e., a ressurreição dos corpos.

De principiis, Livro II, cap. X.

Aos pecadores, ainda haveria uma chance de redenção. O “fogo do inferno” não seria um castigo físico, mas um fogo moral e purificador:

O Fogo do Inferno, além disso, e os tormentos com os quais a sagrada escritura ameaça os pecadores são explicados por ele não como punições externas, mas como aflições de consciências pesadas quando, pelo poder de Deus, a memória de nossas transgressões é posta perante nossos olhos. “Toda colheita de nossos pecados cresce de novo das sementes que permanecem na alma e todos os atos desonrosos e indignos são outra vez retratados diante de nossas vistas. Assim é o fogo da consciência e os espinhos do remorso que torturam a mente a medida que ela relembra na referida autoindulgência”. E de novo: “mas talvez este grosseiro e terreno corpo deva ser descrito como névoa e escuridão; pois ao fim deste mundo e quando for necessário passar ao outro, o similar à escuridão levará ao similar nascimento físico [ou fisicamente nascido]”. Falando assim ele claramente pleiteia pela transmigração das almas como ensinado por Pitágoras e Platão.

Jerônimo, Carta a Ávito, 124

Pode ser sugerido acima que na passagem de uma era a outra ocorreria o “reencarne”. Na verdade, há indícios de que a “reencarnação” origenista se daria por alguma forma de continuidade entre um corpo físico e outro, ao menos para a primeira geração da era que se iniciasse (opinião que corroboro de Origen of Alexandria – The Internet Encyclopedia of Philosophy). Talvez o choque de Jerônimo possa ser explicado por passagens de outras obras de Orígenes em que ele fala de transformações, não trocas de corpo:

De acordo com a lei de Moisés está escrito sobre certas coisas que “deitá-las-ei aos cães” [Ex. 22, 31] e foi uma questão referente ao Espírito Santo dar instrução sobre certos alimentos que deveriam ser deixados aos cães. Quantos outros, então, que são estranhos à doutrina da Igreja, assumem que almas passam de corpos de homens para corpos de cães, segundo seu variável grau de iniquidade; mas nós, que não achamos isto na divina Escritura, dizemos que uma condição mais racional muda para uma mais irracional, sofrendo esta modificação como consequência de grande indolência e negligência. Mas também, da mesma forma, um arbítrio que foi mais irracional, por causa de sua negligência da razão, algumas vezes se transforma e se torna racional, de modo que aquele que foi um cão, adorando comer as migalhas que caem da mesa de seus senhor, vai para a condição de filho. Pois virtude contribui enormemente para fazer de alguém um filho de Deus, mas maldade, e fúria enlouquecida em falas licenciosas e descaramento contribuem para a atribuição de um homem do nome de cão, conforme as palavras da Escritura [2 Sm 16:9].

Orígenes, Comentário ao Evangelho de Mateus, cap. XI, 17

Desta forma, Orígenes concilia sua crença em mundos sucessivos com um viés “ortodoxo”. Ele não cria em uma “reencarnação” dentro de nossa era e negou em outras obras a existência disto na Bíblia, o que é perfeitamente coerente com sua ideia de “reencarnação entre eras” (com possível continuidade entre corpos). A medida que seres purificados iam aumentando em número seria chegada a hora da “consumação de todas as coisas”, onde todos os seres racionais seriam restaurados a sua pureza original (apocatástase) e Deus seria “tudo em todos”. O universo chegaria a um fim e os seres racionais dispensariam seus corpos.

Então o fim do mundo e a consumação final ocorrerão quando cada um se sujeitar à punição por seus pecados, uma ocasião que só Deus sabe, quando Ele dará a cada um o que merece. Pensamos, na verdade, que a divindade de Deus, por meio de Seu Cristo, chamará todas as Suas criaturas para um fim, até mesmo Seus inimigos sendo conquistados e subjugados. Pois assim diz a sagrada Escrituras, “E o Senhor dirá ao meu Senhor, ‘Senta-te a minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés’ “(Sl 110:1). E se o sentido da linguagem do profeta aqui for menos clara, podemos nos certificar do apóstolo Paulo, que fala mais abertamente assim: “Pois é preciso que Cristo reine até Que Ele ponha todos os inimigos debaixo de Seus pés”(I Cor 15:25). Mas mesmo se tal explícita declaração do apóstolo não nos informa suficientemente quanto ao significado de “inimigos sendo postos debaixo de seus pés”, escute o que ele diz nas seguintes palavras, “Pois todas as coisas devem ser postas sob Ele”. O que então é este “colocando debaixo” pelo qual todas as criaturas devem estar sujeitas a Cristo? Sou da opinião que é esta a mesma sujeição pela qual todos nós também desejamos nos sujeitar a ele, pela qual os apóstolos também foram sujeitos e todos os santos que têm sido seguidores de Cristo. Pois o nome “sujeição”, pela qual estão sujeitos a Cristo, indica que a salvação que procede dele pertence a seus submissos, em concordância com a declaração de Davi, “Não deverá minha alma estar sujeita a Deus? Dele vem minha salvação”.(Sl 62:2)

De principiis, I, VI, 1

Mas este não seria o fim da história. Como não conseguia conceber uma divindade ociosa e seres estáticos, cedo ou tarde o processo recomeçaria com novas quedas:

Então, se essas conclusões parecem válidas, segue que devemos acreditar que nossa condição em algum tempo futuro será incorpórea e se isto for admitido e todos estiverem submetidos a Cristo, essa (incorporeidade) também deve necessariamente concedida a todos a que a sujeição a Cristo se estenda; desde que todos que estão sujeitos a Cristo estarão no final sujeitos a Deus, o Pai, a quem se diz que Cristo envia o reino; e assim parece que, então, também a necessidade de corpos cessará. E se ela cessar, a matéria retornará ao nada, como ela anteriormente inexistia.

Então vejamos o que pode ser dito em resposta àqueles que fazem estas assertivas. Visto que parecerá ser uma necessária consequência que, se a natureza corporal for aniquilada, ela deve ser outra vez restaurada e criada; já que parece algo possível que as criaturas racionais, das quais a faculdade do livre-arbítrio nunca é retirada, possam novamente estar sujeitas a movimentos de alguma forma, por meio de um ato especial do próprio Senhor, talvez a fim de evitar que, se elas estivessem sempre a ocupar uma posição que fosse imutável, devessem ser ignorantes de ter sido pela graça de Deus e não por seu próprio mérito que foram postas naquele estado final de felicidade; e estes movimentos serão indubitavelmente outra vez seguidos por uma variedade e diversidade de corpos, pelos quais o mundo está sempre ornado; nem será composto (de nada) além de variedade e diversidade, – um efeito que não pode ser produzido sem uma matéria corporal.

De Principiis, II, III.3

Resumindo: Orígenes concebeu um sistema de criações sucessivas de mundos antes e posteriores a este. O estado original de todos os seres racionais seria o de uma felicidade plena e incorpórea, mas por descuido ou insubmissão (no caso dos demônios), se afastaram as almas do estado original de graça e Deus teria criado o mundo material e seus corpos físicos para que pudessem se regenerar. Em ordem crescente a queda seria anjos, estrelas, humanos e demônios. Ao fim de cada mundo criado, haveria uma ressurreição e Julgamento Final com a redenção dos “santos” e o fogo do inferno para os pecadores. Tal fogo seria algo moral, uma revisão pela consciência de todos os pecados cometidos a fim de purificar o indivíduos. Os que ainda precisassem de purificação ao fim do processo, passariam ao próximo mundo (semelhante a este ou não), criado em uma nova era (aeon). Devido ao livre-arbítrio, virtuosos de uma era poderiam ser pecadores em outras e vice-versa, para o processo não ser errático, nossa era conheceu o sacrifício de Cristo, que teria um efeito catalisador para as almas escolhessem e optassem pelo caminho do bem. Quando todos estivessem submissos a Cristo, a natureza corporal teria um término e a beatitude original seria restaurada (“o princípio e fim são os mesmo”). Embora cedo ou tarde tudo se reiniciaria mais uma vez, com novas quedas, etc. Uma espécie de tentativa de conciliar o tempo cíclico de algumas correntes do pensamento grego com o tempo linear judaico-cristão.

Há outros textos de Orígenes que contradizem suas teses mais polêmicas, como a caridade dos eleitos no céu não ser devida a uma escolha ou mérito, mas a uma suspensão do livre arbítrio “para tornar o pecado impossível” (Comentário aos Romanos, V, 10). Há estudiosos que alegam não ter sido Orígenes um pensador metódico: o conjunto de sua obra não permite formar um sistema teológico coerente.

Evágrio Escolástico – História Eclesiástica

29 de dezembro de 2011 Comentários desligados
Evágrio Escolástico (536/7 – ?), bispo de Antioquia, escreveu um conjunto de crônicas da política religiosa imperial de 431 (no segundo concílio de Éfeso) até 594. Seu relato da segunda crise origenista começa pelo fim, já no ano de 553, e corresponde aproximadamente ao capítulo XC da Vida de Saba. Há algumas diferenças: a expulsão dos origenistas de Nova Laura precede o concílio e dá a entender que a questão dos “Três Capítulos” foi exposta só naquele ano. Tal como nos relatos anteriores acerca dos eventos de 543, Evágrio dá como gatilho para a ação de Justiniano a requisição de clérigos ortodoxos palestinos e defende a tese da intriga origenista contra os Três Capítulos como uma espécie de ação diversiva. De certa forma, este autor compacta as duas etapas da crise em uma só.

Livro IV, cap. XXXVIII

O Quinto Concílio Universal

Durante a época em que Vigílio era bispo da Antiga Roma e primeiramente Mena e depois Eutíquio da Nova Roma, Apolinário de Alexandria, Donino de Antioquia e Eustóquio de Jerusalém, Justiniano convocou o quinto sínodo pela seguinte razão:

Por causa da crescente influência daqueles que professavam as opiniões de Orígenes, especialmente no chamado [mosteiro] Nova Laura, Eustóquio lançou todo esforço para a remoção deles e, visitando o referido lugar, expulsou toda a facção, mandando-os para bem longe, como pragas comuns. Essas pessoas, com sua dispersão, se associaram com muitos outros. Encontraram um campeão em Teodoro, cognominado Ascidas, bispo de Cesareia, metrópole de Capadócia, que estava constantemente junto à pessoa de Justiniano, como sendo de confiança e altamente prestativo a ele. Enquanto ele estava criando muita confusão na corte imperial e declarou o procedimento de Eustóquio ser absolutamente ímpio e ilegal, esse último despacha para Constantinopla Rufo, superior do mosteiro de Teodósio, e Conon, do de Saba, pessoas de alta distinção entre os eremitas, ambos por causa dos seus méritos pessoais e das casas religiosas das quais eram chefes; e com eles estava juntos outros quase que nada inferiores seus em dignidade. Eles, na primeira ocasião, trouxeram à discussão as questões relacionadas a Orígenes, Evágrio [Pôntico] e Dídimo. Entretanto, Teodoro da Capadócia, como o objetivo de desviá-los desse ponto, introduziu a matéria referente a Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto e Iba; o bom Deus estava providencialmente dispondo todo o arranjo, para que as blasfêmias de ambas as facções fossem banidas.

Tendo iniciado a primeira questão, a saber, se era adequado anatematizar o falecido [i.e., Orígenes]; Eutíquio, um homem de consumada habilidade nas divinas Escrituras, sendo até agora uma pessoa indistinta – pois Mena ainda estava vivo e ele próprio era àquela época aprocrisário para o bispo de Amaseia – lançando um olhar sobre a assembleia, não apenas de autoridade e inteligência, mas de desprezo, declarou claramente que a questão não precisava de debate, já que o Reis Josias, em tempos antigos, não só matou os sacerdotes dos demônios, mas também quebrou os sepulcros dos que já estavam mortos há muito [cf. II Cr 34]. Isso foi considerado por todos como dito de modo pertinente. Justiniano, tendo tomado conhecimento da circunstância, também o elevou a sé da cidade imperial na ocasião da morte de Mena, que ocorreu pouco depois. Vigílio deu sua aprovação por escrito à assembleia do sínodo, mas se recusou a comparecer.

Justiniano apresentou uma pergunta ao sínodo em sua assembleia a respeito de qual era a opinião deles quanto a Teodoro e as declarações de Teodoreto contra Cirilo e seus doze capítulo, bem como a carta de Iba , como é chamada, endereçada a Mari, o persa. Após ler muitas passagens de Teodoro e Teodoreto e dado prova que Teodoro fora há muito tempo atrás condenado e apagado dos sagrados dísticos, como também que isso estava asseverando que heréticos deviam ser condenados após a morte, eles em unânime anatematizaram Teodoro e o que foi posto por Teodoreto contra os doze capítulos de Cirilo e a correta fé; bem como a carta de Iba a Mari, o persa; nas seguintes palavras:

Nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo, segundo a parábola nos evangelhos,” etc. “Além de todos os outros heréticos, que foram condenados e anatematizados pelos supracitados quatro sínodos e pela santa católica e apostólica igreja, condenamos e anatematizamos Teodoro, intitulado bispo de Mopsuéstia, e seus ímpios escritos; também o que quer que tenha sido impiamente escrito por Teodoreto contra a correta fé, contra os doze capítulos do santificado Cirilo, e contra o primeiro santo sínodo de Éfeso, e tudo que ele escreveu em defesa de Teodoro e Nestório. Anatematizamos, além disso, a ímpia carta que é dita ter sido escrita por Iba para Mari, o persa.

Após alguma outra questão, passaram a organizar quatorze capítulos acerca da fé correta e impugnável. Dessa forma os relatórios prosseguiram; mas por ocasião da apresentação dos libelos contra a doutrina de Orígenes, também denominado Adamâncio, e dos seguidores de seu ímpio erro pelos monges Eulógio, Conon, Ciríaco e Pancrácio, Justiniano endereçou a questão ao sínodo quanto a esses pontos, anexando uma cópia do libelo, bem como a epístola de Vigílio sobre o assunto; a partir da totalidade delas podem se reunir as tentativas de Orígenes de encher a simplicidade da doutrina apostólica com ervilhacas filosóficas e maniqueias. Portanto, uma relação foi endereçada para Justiniano pelo sínodo, depois de terem proferido exclamações contra Orígenes e os defensores de erros similares. Uma parte dela está expressa nos seguintes termos: “Ó cristianíssimo imperador, dotado com celestial generosidade de alma,” etc. “Afastamo-nos, portanto, afastamo-nos desse erro, pois não conhecíamos da voz do estranho [à doutrina]; e havendo prendido tal, como um assaltante ou ladrão, nos laços de nosso anátema, rejeitamo-lo dos sagrados precintos.” E agora prosseguem: “Por meio de cuidadosa leitura conhecerás o vigor de nossos atos.” A isto eles anexaram uma declaração dos enunciados das teses que os seguidores de Orígenes são instruídos a seguir, mostrando suas aprovações, bem como suas reprovações, e seus múltiplos erros. O quinto enunciado contém as blasfemas expressões clamadas por particulares indivíduos pertencentes ao que é chamado de Nova Laura, como se segue. Teodoro, apelidado Ascidas, o capadócio, disse: “Se os Apóstolos e Mártires nos dias atuais operam milagres e já são altamente honráveis, a menos que sejam iguais a Cristo na restituição das coisas, em qual sentido há uma restituição para eles?” Também relataram muitas outras blasfêmias de Dídimo, Evágrio [Pôntico] e Teodoro [Ascidas]; tendo com grande diligência extraído o que quer que tivesse a ver com esse pontos. Algum intervalo de tempo depois da reunião do sínodo, Eutíquio foi deposto e indicado para o seu lugar na sé de Constantinopla João, natural de Seremis, que é uma vila do distrito de Cinégica, pertencente a Antioquia. [ca. 565 d.C.]

Para Saber mais:
Scholasticus, Evagrius; Ecclesiastical History, Tertulian Project.

Cirilo de Citópolis – A Vida de Ciríaco

28 de dezembro de 2011 Comentários desligados
Agora será apresentado um capítulo (ou melhor, quatro em um) da vida deste monge em que ele dialoga com o futuro autor de sua hagiografia e dá informações a respeito do estágio em que se encontrava o origenismo de sua época.

Entre colchetes [ ] do corpo de texto, os códigos das folhas e linhas adotados na edição do texto grego feita por Eduard Schwartz em 1939, seguidos, às vezes, pelo ano correspondente à narrativa.

* * *

11-15 O primeiro encontro do autor com Ciríaco

11.Nesta época, tendo partido do mosteiro do grande Eutímio para o Grande Laura do abençoado Saba a fim de visitar Abba João, bispo e eremita, fui [229, 10] enviado por ele até Abba Ciríaco com cartas narrando a recente guerra civil na cidade santa e lhe implorando para agora lutar em intercessão com Deus para aplacar a fúria de Nono e Leôncio e seus partidários no Nova Laura, que faziam campanha contra Cristo por meio das doutrinas de Orígenes. [229, 15] Então, quando eu tinha chegado à Souka e ido visitá-lo na caverna de São Caritão com seus discípulos Zózimo e João, fiz reverência e lhe dei a carta, junto com uma mensagem verbal da boca do inspirado Abba João, o eremita. Abba Ciríaco respondeu com [229, 20] lágrimas: ‘Diga ao que lhe enviou: Não desanime, padre, pois nós logo veremos a derrocada de Nono e Leôncio pela morte e a expulsão do resto deles do Nova Laura, para que os genuínos discípulos do abençoado Saba possam habitar o Nova Laura, uma vez que os falsos tenham sido enxotados.’

12. [229, 25] Perguntei-lhe, ‘Padre, quais as concepções que eles advogam? Os próprios afirmam que as doutrinas da pré-existência e da restauração são indiferentes e inofensivas, citando as palavras de São Gregório. “Filosofar sobre o mundo, a matéria, a alma, as naturezas racionais boas e más, a Ressurreição [229, 30] e a Paixão de Cristo; pois nessas questões não se atinge a verdade sem lucro e o erro é inofensivo”(9). O ancião respondeu nas seguintes palavras: ‘As doutrinas da pré-existência e restauração não são [230.] indiferentes e inofensivas, mas perigosas, danosas e blasfemas. A fim de te convencer, tentarei expor sua variada iniquidade em poucas palavras. Eles negam que Cristo pertença à Trindade. Dizem que nossos corpos ressuscitados passarão por uma destruição total e [230, 5] o de Cristo primeiro que todos. Dizem que a santa Trindade não criou o mundo e que na restauração todos os seres racionais, mesmo os demônios, serão capazes de criar éons. Dizem que nossos corpos serão erguidos etéreos e esféricos, e afirmam que o corpo do Senhor foi erguido nessa forma. [230, 10] Dizem que todos serão iguais a Cristo na restauração (10)’.

13.’ Mas que diabo espalhou essas doutrinas? Eles não as aprenderam de Deus que falou por meio dos profetas e apóstolos -sem chances- mas reviveram essas abomináveis e iníquas doutrinas de Pitágoras e Platão, de Orígenes, Evágrio e Dídimo. Fico surpreso com quantos esforços vãos e fúteis eles gastaram em tais bobagens danosas e estafantes, e como desse jeito muniram suas línguas contra a piedade. Não seria melhor que tivessem louvado e glorificado o amor fraterno, a hospitalidade, a dedicação aos pobres, a salmodia, as noites inteiras de vigília e as lágrimas de compunção? Não deveriam disciplinar o corpo pelos jejuns, ascender a Deus pela oração, fazer da vida um ensaio para a morte, em vez de ficar meditando sobre tais sofismas? Mas (acrescentou o ancião) não desejaram seguir o humilde caminho de Cristo, mas no lugar disso “tornaram-se fúteis em seus pensamentos e o coração insensato deles obscureceu; achando-se sábios, tornaram-se tolos (Rm 1:21-22)“. O semeador de todas essas ervas daninhas e causa desses males foi Nono, que, tomando vantagem da morte de nosso abençoado Saba, começou a fazer seus companheiros beberem de preparado vil (cf. Hab 2:15), tendo Leôncio de Bizâncio como seu assistente, campeão e companheiro de combate.’

14. ‘De início, ele seduziu para a sua abominável heresia o mais cultos, ou melhor os mais incultos, no Nova Laura. Não ficou satisfeito com esses monges, e se empenhou em dar aos outros mosteiros do deserto uma parte de sua própria praga. Quais estratagemas ele não usou para também seduzir eu mesmo, pobre e humilde? Mas Deus me mostrou por revelação a imundície de sua heresia. Quais esquemas não empregou para comunicar seu ensinamento maligno à comunidade de Souka? Mas ele falhou, já que eu, pela graça de Cristo, avisei e exortei cada um a não se afastar da verdadeira fé. Quando se empenhava em fazer um partidário de sua heresia – isto é: Pedro, o Alexandrino (11) – superior de nossa laura e, assim, escravizar toda a comunidade, não foi bem sucedido: pelo contrário, a comunidade se afanou e expulsou Pedro do cargo de superior. Mais uma vez Nono desavergonhadamente se afanou para fazer de outro Pedro, o Grego (12), um partidário da praga de Orígenes, nosso superior, mas a comunidade mais uma vez foi movida por zelo espiritual para expulsar Pedro do cargo de superior; indo para a laura do abençoado Saba, ela escolheu para si mesma o atual superior, Abba Cassiano, que é de Citópolis, ortodoxo e agraciado tanto em sua vida como em seu ensino (13). Foi então que conseguimos, com dificuldade, ser bem sucedidos em repelir os partidários de Orígenes.’

15. Assim que tinha me dito isso, o servo de Deus, Ciríaco, encheu-se de alegria ao saber que eu sou do grande mosteiro do abençoado Eutímio, disse a mim: ‘Veja que você é do mesmo cenóbio que eu.’ E prosseguiu iniciando um relato para mim de muitos fatos a respeito dos Santos Eutímio e Saba que coloquei em duas obras que já escrevi sobre eles. E então, tendo acalentado minha alma com estes relatos, deixou-me seguir em paz.

Alguns tinham começado a importuná-lo na caverna do santificado Caritão. Então, por ocasião da morte de Nono, o líder dos origenistas, eles ficaram sem controle e a campanha contra os ortodoxos ficou desorganizada, enquanto os heréticos estavam agora ocupados em lutar uns contra os outros, o ancião se sentiu livre de receio e mais uma vez se retirou, no nonagésimo ano de sua vida, da caverna do santificado Caritão para Sousakim, onde viveu como eremita por oito anos. Eu, por um desejo de lhe expressar a minha devida consideração, fui para a laura de Souka e, acompanhado por seu discípulo João, parti para Sousakim; este lugar se encontra a cerca de noventa estádios da laura de Souka. Quando estávamos chegando perto do local, topamos com um imenso e aterrorizante leão. Eu estava petrificado de medo, mas Abba João me disse: ‘Não tema.’ E quando o leão viu que estávamos indo até o ancião, deixou-nos passar.

Notas da tradução inglesa de R.M. Price:

(9) – Para esta passagem de Gregório Nazianzeno, ver Ad Eunomium 10 (Patrologia Graeca 36:25). Parece que Cirilo era, naquela época, simpático às estimulantes especulações dos origenistas.

(10) – Estas concepções lembram as atacadas pelos anátemas emitido no segundo Concílio de Constantinopla, excetuando que acrescentam um pormenor não encontrado nos anátemas, que as almas na ressurreição serão capazes criar éons ou ‘entes espirituais’. As concepções sob ataque são as dos evagrianos isocristas. Ver Vida de Saba, nota 132

(11) – Para Pedro, o Alexandrino, ver 193, 16.

(12) – Pedro, o Grego, não é citado em nenhum outro lugar.

(13) – Cassiano se tornou superior em Souka em 538, e então se mudou para o Grande Laura em 546. Ver 196, 10-18.

Para saber mais:

Scytholopolis, Cyril of; The Lives of the Monks of Palestine, tradução inglessa de Price, R.M; Cistercian Publications, 1991.

Cirilo de Citópolis – A vida de São Saba

23 de dezembro de 2011 1 comentário
Tem-se difundido muito a ideia de que a reencarnação era predominante no cristianismo até 553 d.C. e foi eliminada pela condenação do teólogo Orígenes a mando do imperador bizantino Justiniano e sua esposa/prostituta Teodora, que convocaram o II Concílio de Constantinopla (ou V Concílio Ecumênico) para esse fim. Portanto, em homenagem a José Reis Chaves e outros grandes pesquisadores que, como ele, “dão muito valor” a fontes primárias e relatos em primeira mão, ofereço aos meus leitores a descrição de Cirilo de Citópolis dos episódios sucedidos na Palestina do século VI e que descrevem pormenorizadamente o que de fato aconteceu. Os fatos são narrados na obra A Vida dos Monges da Palestina, mais especificamente na biografia de São Saba. O texto e as notas foram extraídos da tradução inglesa de R.M. Price e introdução de John Binns.

Introdução – 10. Disputas Doutrinárias.

Por John Binns

A carreira monástica de Cirilo teve transcurso numa sociedade dividida pela controvérsia doutrinária. Ele chegou a Jerusalém em 543 e não poderia evitar ser arrastado para os dolorosos eventos que ele descreve vividamente nas últimas páginas de A Vida de Saba. Era a época quando os monges do [mosteiro] Grande Láurea não podiam andar pelas ruas da capital em segurança (193.21-7). Ele não era um observador imparcial, mas adquiriu um agudo interesse nas questões em discussão. Sua mãe tinha receio de que seu filho fosse seduzido pela atração da especulação teológica e instruiu-o firmemente a se guiar pelos conselhos de João Hesicasta [John the Hesychast]. Sua preocupação tinha claro fundamento, pois o próprio Cirilo se mostrou simpático aos ensinamentos do grupo origenista e teve de ter o erro de seu modo de pensar firmemente demonstrado por Ciríaco [Cyriacus] (229.4 – 230.22). Esta conversa aponta para o processo pelo qual ele se tornou um firme defensor do “ortodoxo” e teve relação com a vitória final ao participar da fundação do Nova Laura após o Concílio de Constantinopla.

Os homens santos de Cirilo desempenharam uma parte importante na luta pela ortodoxia. A oposição de Eutímio aos monofisistas e de Saba aos origenistas seguem um padrão similar. Primeiramente, o inimigo é identificado (41.19-42.15, 103.12-17). Então o santo, em vez de arriscar a se corromper associando-se com os heréticos, retira-se para região remota (44.15-45.4, 118.29-121.2). Sua ausência é breve e sem delongas volta para seu mosteiro (45.5-6, 121.14-122.18). A correção de sua fé reconhecida e sua autoridade confirmada por, entre outros, representantes da família imperial (47.26-49.2, 141.24-144.28). A queda final da heresia ocorre após a morte do santo, um sinal da efetividade de sua intercessão nas cortes celestes em lugar de qualquer fraqueza em seu ministério terreno (66.18-67.20, 198.7-200.16). As lutas de Cirilo quanto às outras questões de ortodoxia são referenciadas, mas não descritas (221.18-22, 229.7-230.22, 235.14-238.25). A profecia feita sobre Eutímio, que ele restauraria a euthymia ou a confiança às igrejas, poderia se aplicar igualmente a qualquer um dos santos descritos por Cirilo (9.6-9).

As duas heresias do monofisismo e do origenismo foram fenômenos muito diferentes. O monofisismo era um amplo e popular movimento de oposição às definições cristológicas do Concílio de Calcedônia. As instruções dadas por Eutímio a um delegado para o Concílio de Éfeso em 431, para defender os ensinamentos de Cirilo de Alexandria e Acácio de Miletina, eram típicas das opiniões doutrinárias do grosso da Igreja bizantina (33.3-6). O ensinamento de Cirilo, que foi adotado rigidamente pelos monofisistas, era tido como autoritativo. Mas as declarações doutrinárias de Calcedônia foram influenciadas pelas posições teológicas e linguagem da Igreja ocidental, expressas no Livro de Leo, bem como pelos escritos mais familiares de Cirilo. O resultado foi uma declaração sobre as duas naturezas em Cristo postas em inusitados termos que pareceram a muitos ser um retorno ao nestorianismo demolido de forma bem sucedida em Éfeso ao ano de 431. Os monges, em particular, receberam as novidades do Concílio de Calcedônia como choque e espanto. (55)

A reação ao Concílio foi imediata e violenta tanto no Egito como na Palestina (41.19-42.9, 50.20-51.1). Mas ao passo que no Egito o sentimento anticalcedonense endureceu e finalmente levou ao estabelecimento de uma hierarquia monofisista em separado, na Palestina a revolta foi rapidamente sufocada e a ortodoxia calcedonense triunfou por fim. Várias razões para esse desenvolvimento histórico diferente foram sugeridas, entre as quais as forças nacionalistas (56). No Egito, a força do movimento monofisista jazia nas comunidades de língua copta nas quais a lealdade à memória de Cirilo de Alexandria e Dióscoro combinou-se com injustiças sociais e econômicas para formar uma igreja separatista popular refratária. Características similares são encontradas nos grupos monofisistas da Síria, excetuando, é claro, que a língua era o siríaco. Na Palestina, a comunidade cristã era grega. A norma escrita atribuída a Saba mostra sinais de discriminação contra os falantes do siríaco com sua recusa em permitir que um superior fosse escolhido entre aqueles desse grupo. Os escritos de Cirilo [de Citópolis] e Teodoro de Petra não fazem menção da língua siríaca sendo usada nos mosteiros. Os mosteiros eram mais abertos à influência externa do que os do Egito e o credo calcedonense lentamente ganhou terreno. (57)

Mas mesmo na Palestina, o debate foi demorado. Cirilo exagerou a importância da contribuição de Eutímio. As opiniões doutrinárias atribuídas ao santo são, na verdade, as de um século antes e foram tomadas de escritos do imperador Justiniano (39.18 – 41.3). Historiadores monofisistas dão um relato muito diferente dos eventos, sugerindo que as decisões de Calcedônia não foram aceitas na Palestina até a acessão do imperador Justino I em 518 (162.10 – 18). (58) É intrigante especular por que Eutímio não apoiou Teodósio após o Concílio de Calcedônia. Estaria ele, na verdade, persuadido da ortodoxia da definição do concílio ou ele fora repelido pela violência e ilegitimidade da ascensão de Teodósio.

O segundo debate doutrinário descrito por Cirilo é o com os origenistas. A especulação origenista, com base no estudo da Bíblia e seu interesse no destino da alma após partir deste mundo, exerceu uma poderosa atração sobre os monges mais intelectuais. A história do monacato mostra os origenistas convivendo algumas vezes em harmonia com os outros monges, algumas vezes em incômoda tensão e algumas vezes em conflito aberto. O conflito fora particularmente amargo no Egito após a condenação de Teófilo de Alexandria do origenismo em 400. (59). Cirilo descreve a existência em Grande Laura de um grupo de monges intelectuais que se queixavam da falta de estudos de Saba e seu desenvolvimento em um partido organizado se jactando de influentes porta-vozes na corte imperial e unidos por uma aceitação das opiniões doutrinárias evagrianas. (60)

O zênite da influência do grupo veio durante a reação ao Edito de Justiniano contra o origenismo promulgado em 543. Nos anos seguintes, foi-se capaz de assegurar a indicação de seus candidatos favoritos para os importantes postos de superior do Grande Laura e, finalmente, Patriarca de Jerusalém. Sua queda veio com o Concílio de Constantinopla em 553 e dois anos depois os origenistas foram expulsos de sua fortaleza em Nova Laura.

Cirilo escreveu no entusiasmo da vitória, quando estava morando em Nova Laura, um membro da vanguarda de um exército triunfante. Um tema de seu trabalho é a vocação dos líderes monásticos para estabelecer a fé ortodoxa na igreja. O envolvimento e interesse nas controvérsias doutrinárias do século VI levou seu “Vidas…” a se tornar uma declaração apologética da fé que viria a ser chamada de neocalcedonense. (61)

Notas à Introdução.

(55) A Plephoria de João Rufo é uma fonte monofisista palestina que descreve vividamente a repugnância dos monges contra Calcedônia seu ódio a Juvenal.

(56) A postura nacionalista do monofisismo é debatida por Hardy, Christian Egypt, Church and People. Uma crítica a esta tese está em Jones, ‘Were the ancient heresies nationalist or social movements in disguise?‘ A evidência de Jones para a Palestina é limitada e não se origina da área em torno de Jerusalém.

(57) A listagem dos primeiros monges de Eutímio mostra o caráter internacional deles (25.13 – 26.14), mas a evidência completa vem de inscrições nas câmaras funerárias do mosteiro de Coziba, apresentadas por Schneider, ‘Das Kloster monastery der Theotokos zu Choziba‘. A Norma de Saba é resumida em Kurtz, ‘Tupos kai paradosis‘. Algumas das declarações doutrinárias deste período são apresentadas em A. Grillmeier, Christ in the Christian Tradition, vol. 2/1, especialmente nas páginas 98-105, 200-201, 250-252, 279-281,

(58) A dependência de Cirilo em Justiniano é mostrada em Schwartz, 362. Para maiores bases na história da heresia monofisista, veja Frend, The Rise of the Monophysite Movement.

(59) Paládio, História Láusica, 10.6, 11.4, dá um cômputo de vários respeitados monges origenistas no Egito. O conflito contra o origenismo é descrito por Sozomen, História Eclesiástica, 8.11-22 e Sócrates, História Eclesiástica, 6.7-13.

(60) Veja Vida de Saba, nota 133.

(61) Neocalcedonianismo é o nome dado à teologia do segundo Concílio de Constantinopla (553). Ele harmonizou a teologia de Calcedônia com o pensamento de Cirilo de Alexandria. Veja, por exemplo, C. Moeller, ‘Le Chalcédonisme et le Néo-Chalcedonisme en Orient de 451 à la fin du Vie siècle‘.
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A Vida de São Saba

Aqui, serão postos excertos dos capítulos da vida Saba referentes às suas contendas com o origenismo, conforme a cronologia feita na descrição de John Binns (segundo parágrafo da introdução). Entre colchetes [ ] do corpo de texto, os códigos das folhas e linhas adotados na edição do texto grego feita por Eduard Schwartz em 1939, seguidos, às vezes, pelo ano correspondente à narrativa. Outros usos para os colchetes, feitos agora por mim, são o emparelhamento com a cronologia de Binns, nos título de cada capítulo, e a versão inglesa dos nomes transliterados quando aparecem pela primeira vez.

19. Ele é ordenado Sacerdote

[identificado o embrião do partido origenista]

O santificado Martírio [Martyrius] se encontrava próximo do fim de oito anos de seu episcopado quando partiu para Deus em 13 [103, 10 – 486 d.C.] de abril da nona indicção e Salústio [Sallustius] sucedeu ao episcopado, aos 48 anos de vida de nosso padre Saba. Então se espalharam em sua laura (n.p. 1) aqueles que eram de pensamentos carnais e, nas palavras da Escritura, ‘deficientes em Espírito’ (Jz 19), Por um tempo considerável eles engendraram intrigas que lhe causaram problemas de todo o tipo; afinal [103, 15], foi possível para Judas ser tolerado entre os apóstolos, e para Giezi por um tempo junto a Eliseu (2 Rs 5:20-27), e para Esaú ser filho de Isaque, e Caim ser irmão de Abel.

Estes homens dos quais falo, agindo em conjunto, partiram para a cidade santa e abordaram o Arcebispo Salústio, pedindo-lhe que lhes desse um superior (22). O arcebispo disse a eles, ‘De que lugar vocês são?’. ‘Vivemos num desfiladeiro do deserto’, responderam. O [103, 20] arcebispo perguntou, ‘Em qual desfiladeiro?’ Estando pressionados, responderam, ‘No que é chamado por alguns como o de Abba Saba’. ‘Onde então está [103, 25] Abba Saba?’, perguntou o arcebispo. Responderam, ‘Ele é incapaz de dirigir o lugar por causa de sua extrema rusticidade (23). Acrescentando mais uma questão, nem o próprio é ordenado nem tem deixado ninguém mais se tornar clérigo. Como então pode ele governar uma comunidade de cento e cinquenta pessoas?’ [104.] Certo Círico [Cyricus], digno de menção, padre e superior da santa igreja da Ressurreição a guardião da Cruz (n.p. 2), que estava presente na ocasião e tinha ouvido o que foi dito, perguntou-lhes, ‘Vocês o aceitaram nesse lugar ou foi ele quem [104, 5] os aceitou?’ Responderam que ‘na verdade foi ele quem nos aceitou, mas por causa de sua rudeza ele está incapaz de nos comandar, agora que nos multiplicamos’. O três vezes louvado Círico perguntou de novo, ‘Se ele, como dizem vocês, foi capaz de ajuntá-los nesse lugar e colonizou esse lugar que era um deserto, como poderia ele mais ainda governar tanto o lugar que vem sendo colonizado quanto aqueles que trouxe [104, 10] em união? Deus, que o assistiu em reuni-los e fundar o local, vai assisti-lo ainda mais em governá-lo.’ Neste momento o arcebispo dispensou-os com as palavras, ‘Saiam por enquanto, reflitam e voltem amanhã.’

Então, chamando o abençoado Saba como se fosse por outra [104, 15] razão e bem como convocando seus acusadores, ele o ordenou sacerdote na frente de seus olhos e lhes disse, ‘Vejam, aqui vocês têm seu padre e superior sua laura, eleito por Deus do alto e não dos homens, pois ao impor as mãos eu apenas confirmei a divina eleição.’ Após dizer isto, levou o abençoado Saba e estes homens para a laura, [104, 20] acompanhado pelo mencionado acima guardião da Cruz, Círico. Ele inaugurou a igreja construída por Deus e estabeleceu um altar consagrado no abside construído por Deus e colocou muitas relíquias de mártires santos e vitoriosos sob o altar, em 12 de dezembro da décima quarta indicção, [491 d.C.] aos 53 anos da vida do abençoado Saba, [105.] no ano em que o imperador Zenão [Zeno] morreu e Anastácio [Anastasius] sucedeu ao trono (24).

Notas:

(22) – Presumivelmente, os rebeldes esperavam que Salústio fosse mais simpático a eles que Martírio que, como um dos monges de Eutímio, deveria ter conhecido Saba.

(23) – Nos antigos círculos monásticos egípcios era um elogio ser chamado de ‘rústico’, que implicava nas virtudes camponesas de trabalho árduo e iniciativa pessoal; ver Apopththegmata Patrum, Arsenius 5. Sugere-se aqui que Saba é inapto para governar. Há alguma verdade nesta acusação. Os registros da educação de Saba sugerem que ela foi limitada a aprender a disciplina monástica e Cirilo não faz referência a qualquer educação nos mosteiros de Saba (87,25 – 88,1).

(24) – A décima quarta indicção ocorreu em primeiro de setembro de 490 a 31 de agosto de 491. Zenão morreu em 9 de abril de 491 e Anastácio foi coroado dois dias depois.

Notas do portal:

(1) – “Laura” é um tipo de estrutura monástica da igreja ortodoxa em que cada um dos monges vivia só em sua cabana, cela, caverna, etc., mas suficientemente perto um dos outros para permitir uma comunhão. Uma cidadela de monges. Um outro termo comum à igreja oriental é o de “abba” (ou “aba”). – ao pé da letra significa “pai” em língua siríaca. As palavras portuguesas “padre” e “pai” vieram do latim “pater” (pai), porém a primeira adquiriu significado eclesiástico para sacerdote. No mesmo sentido “abba” deve ser entendido.

(2) – A Cruz ou A verdadeira Cruz era uma suposta relíquia da própria onde Jesus morreu. Foi perdida durante as cruzadas.
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33. A Retirada para a Caverna do Leão

[retirada para região remota]

Quando, pela graça de Deus, houvera ele em curto espaço de tempo aumentado a laura, ampliado a comunidade, fundado o cenóbio de [Monte] Castellion e se tornado exarca de todas as [118, 25] outras lauras e anacoretas, seus discípulos e acusadores mencionados acima, todos mais invejosos por ocasião da fundação de Castellion, incitaram outros da comunidade e, sendo agora em número de quarenta, foram guiados por algum demônio maligno para fomentar a sedição contra ele. Nosso padre Saba, gentil para homens apesar de um guerreiro contra os demônios, rendeu-se a eles e se retirou para a região de Citópolis; estabeleceu-se numa área deserta próxima ao rio Gadarão [Garadôn] e lá ficou por um curto período numa caverna onde um enorme leão costumava se retirar. [119.] Por volta da meia noite, este leão voltou e encontrou o abençoado dormindo. Agarrando seu hábito retalhado com a boca, esforçou-se para tirá-lo da caverna. Quando acordou e começou a salmodia noturna, o leão saiu e esperou do [119, 5] lado de fora da caverna; quando o ancião tinha completado o ofício e se deitado no lugar onde o leão costumava a deitar, ele veio de novo e, agarrando seu hábito retalhado, começou a puxá-lo, tentando removê-lo da caverna. Então, com o leão pressionando-o para deixar a caverna, o ancião falou a ele com [119, 10] confiança de espírito, ‘A caverna é espaçosa o bastante para fornecer pleno abrigo para nós dois, pois ambos temos um Criador. Quanto a você, se quiser, fique aqui; se não, retire-se. Eu mesmo fui moldado pela mão de Deus e privilegiado ao receber sua imagem’. Ao ouvir isto, o leão sentiu algum tipo de vergonha e se retirou.
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35. Seu Segundo Exílio

[retorno após breve ausência]

Ao retornar a sua própria laura, o santificado Saba descobriu que os quarenta mencionados acima, os propensos a [120, 15] partilhar do mal, tinham corrompido outros e se tornado sessenta. Ele ficou aflito e chorou copiosamente pelo dano infligido a sua comunidade, e assombrado com o quão cobiçosa e preparada é a maldade em atrair o negligente para si. De início, opôs paciência à irascibilidade deles e seu amor ao ódio, controlando seu [120, 20] discurso com entendimento espiritual e integridade. Subsequentemente, porém, quando viu que lhes crescia a audácia na maldade e apelo à sem-vergonhice, não suportando caminhar no humilde caminho de Cristo, mas alegando desculpas a seus pecados e inventando desculpas e razões para justificar suas [120, 25] paixões, ele deixou espaço para ira divina e se retirou para a região de Nicópolis, onde viveu como um eremita por muitos dias sob uma simples alfarrobeira, vivendo de alfarrobas. Ao saber disto, o bailio do lugar apareceu para vê-lo [121.] e construiu para ele uma cela no mesmo lugar; esta cela, pelo amparo e favor de Cristo, tornou-se em pouco tempo um cenóbio.

Enquanto vivia nesta região, aqueles bravos monges, tomando vantagem de sua longa ausência, relataram pela laura, ‘Nosso prior, ao vagar pelo deserto, caiu presa de animais selvagens.’ Enganando o resto, foram para a cidade sagrada ao santo Arcebispo Elias e disseram, ‘Nosso prior, retirando-se para o [121, 5] deserto da região do Mar Morto, foi devorado por leões. Dê instruções para que nos seja dado um superior’. Mas Elias, como um verdadeiro sumosacerdote do Deus, conhecendo dos tempos de Santo Eutímio os hábitos do pio Saba desde a juventude, respondeu-lhes, ‘Não acredito em vocês, pois eu sei que Deus não é injusto a ponto de deixar seu servo cair presa de animais selvagens. Mas vão, em vez disso busquem por seu prior ou então fiquem quietos até Deus o mostrar’.

Quando a Festa da Consagração (42) se aproximou, Abba [120, 15] Saba, como costumeiro para os superiores, partiu para a cidade santa com alguns irmãos do mosteiro próximo a Nicópolis, pois, como foi dito, ele fundara um mosteiro lá e atraiu irmão para ele, visto que Deus o assistiu a cada momento crítico, em cada lugar e a cada problema. Com alguns superiores, ele adentrou para [120, 20] ver o arcebispo. Vendo o ancião, o patriarca se encheu de alegria e, levando-o para longe, ordenou-lhe para voltar a sua própria laura. Quando Saba pediu para ser eximido e absolutamente recusou, o arcebispo ficou irritado e disse. ‘Acredite nisto: se você não considerar minha ordem e [120, 25] conselho, nunca mais verá minha face. Não posso admitir que o fruto de seu trabalho seja dirigido por outros’. Quando o arcebispo disse isso, nosso padre Saba consentiu em obedecer ao seu comando; mais foi compelido a mencionar a revolta dos sessenta conspiradores e seu desejo de causar problemas. Com isso, o patriarca, impelido à ação, redigiu para os membros da laura a seguinte carta:

[122.] Desejo que saibam, queridos irmãos, que seu padre está vivo e não foi devorado por leões. Ele veio até mim para a festa e eu o impedi e proibi de abandonar sua própria laura, que o[122, 5] próprio logrou fundar com a ajuda de Deus. Vocês devem, portanto, recebê-lo de volta com a devida honra e se sujeitar a ele da mesma maneira. Pois vocês não o escolheram, mas ele os aceitou; este é o porquê devem se sujeitar a ele. Se algum de vocês for irresoluto, arrogante e desobediente, e não tolerar ser submetido, então não fiquem aí. Seria intolerável para ele não recuperar seu próprio mosteiro.

Então nosso padre Saba, não sabendo como desobedecer, fez um dos discípulos que estavam com ele, natural de Nicópolis e chamado Severo [Severus], superior do mosteiro próximo a Nicópolis; ele, após comandar este mosteiro por muitos anos, foi sucedido por Domno [Domnus] quando morreu. Domno morreu depois de [122, 15] muito tempo, deixando Sabarão [Sabarôn] como seu sucessor. Quanto a tal Sabarão sabe ter envelhecido lá e comandado até o presente dia.

Notas:

(42) – A Festa da Consagração ou Encênia [Encaenia] comemorava a consagração da Igreja da Ressurreição de Constantino em 335. As comemorações começavam em 13 de setembro e duravam uma semana. O peregrino Egéria [Egeria] (The Travels of Egeria 48-49) relata que de quarenta a cinquenta bispos estavam presentes, bem como monges do Egito, Síria e Mesopotâmia.
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36. A Fundação do Nova Laura [O partido origenista se define]

Levando a carta do patriarca, o santificado Saba [122, 20] retornou a sua laura. Quando a carta foi lida em voz alta na igreja, aqueles audaciosos sessenta, veementemente indignados e cegos por sua própria maldade, fizeram uma aliança por um comum acordo e se puseram em ordem de batalha contra o santo padre como se fosse para a guerra. Enquanto alguns deles preparam as vestimentas e bagagem para a partida de todos, os demais levaram machados, pás, enxadas e alavancas e, subindo até a torre dele, demoliram-na até as fundações, com atroz violência, e a atiraram suas tábuas e pedras no [123.] desfiladeiro abaixo. Então se retiram com sua bagagem e, seguindo para a laura de Souka (43), pediram para se estabelecer por lá. Ao ser informado sobre eles, o santo Aquilino [Aquilinus], que então fora indicado como superior de Souka, rejeitou-os e não os acolheria. Quando não conseguiram serem [123, 5] acolhidos, se retiraram para o desfiladeiro ao sul de Theoka, onde encontraram água é vestígios de celas outrora construídas pelos aposquistas [Aposchists] (n.p. 3). Aqui se estabeleceram, fizeram celas para si e denominaram o sítio de Nova Laura. Após sua partida dessa forma da laura do ancião, o restante pôde oferecer como fruto ao Senhor sua [123, 10] pureza de coração sem estorvo, como grãos que crescem assim que as ervas daninhas tenham sido arrancadas.

Pouco tempo depois, São Saba, sendo avisado de onde seus discípulos que desertaram se encontravam, tomou os animais da laura e de Castellion carregados de mantimentos e partiu para lá a fim de visitá-los. Alguns deles, [123, 15] vendo-o chegar, disseram uns aos outros, ‘Vejam, está vindo o vesgo’. O santo ancião, percebendo que eles estavam em grande dificuldade por não terem nem uma igreja, nem quem celebrasse culto, mas comungavam aos domingos no santuário do profeta santo Amós em Theoka, e que estavam sujeitos à desordem da anarquia e, além disso, em [123, 20] rixa e divergência uns com os outros, apenou-se deles e relatou seu caso ao patriarca, pedindo-lhe que os assistisse. O patriarca lhe deu o peso de uma libra em moedas de ouro e também lhe concedeu autoridade sobre aquele lugar e os que nele viviam como sendo [123, 25] de sua própria comunidade. Então o pio ancião voltou a eles com habilidosos operários e todos os recursos e, passando cinco meses com eles, construiu-lhes uma panificação e uma igreja, que ele mobiliou e [507 d.C.] consagrou no sexagésimo nono ano de sua vida.

Mandando chamar o João mencionado acima [124.] de sua própria laura, grego de nascimento e dotado do dom da profecia, fez dele superior de Nova Laura. Este João foi inspirado por Deus a profetizar o que aconteceu à Nova Laura em nosso próprio tempo; [124, 5] visto que quando ele estava preste a morrer no Senhor e os líderes da comunidade estavam sentados junto a ele, irrompeu em lágrimas e disse, ‘Ouçam, virão os dias em que os irmãos desta comunidade se tornarão extremamente orgulhosos e afastados da fé ortodoxa, mas seu orgulho será humilhado e serão perseguidos por sua [124, 10] insolência’. Após dizer isto, ele conseguiu o abrigo do descanso, após governar esta laura de maneira agradável a Deus por sete anos e exibir poderes miraculosos. Os padres locais, a conselho de nosso padre Saba, nomearam um romano chamado Paulo [Paul], um homem ingênuo e [124, 15] desinteressado, esplêndido em virtudes pias. Porém Abba Paulo, após comandar Nova Laura a contra sua vontade por seis meses, debandou para a Arábia e em seguida foi para Caparbarica [Caparbaricha] até o Severiano [Severianus] mencionado acima, que estava fundando um cenóbio por lá, morreu em tal lugar. Os padres de Nova Laura informaram ao [124, 20 ] ancião de Deus da fuga de Paulo e, por repetidas súplicas, obtiveram como superior seu discípulo Agapeto [Agapêtus], mencionado acima.

Agapeto, ao se tornar superior de Nova Laura, encontrou quatro monges na comunidade, admitidos pelo ingênuo Paulo em completa ignorância a respeito deles, que desposavam as doutrinas de Orígenes; seu [124 ,25] líder era um palestino chamado Nono [Nonnus], que, fingindo ser um cristão e simulando devoção, defendia as doutrinas dos ímpios gregos, judeus (n.p. 4) e maniqueus, isto é, os mitos acerca da pré-existência relatados por [125.] Orígenes, Evágrio e Dídimo. Temendo que a corrupção de heresia se espalhasse aos outros, o abençoado Agapeto, com a concordância do santo arcebispo Elias e ao seu comando, expulsou-os de Nova Laura; ao serem expulsos, partiram para a planície, para lá semear sua perniciosa erva daninha (45). [125, 5] Depois que algum tempo se passara e o arcebispo caíra vítima de uma conspiração, como será relatado em breve, Nono e seus companheiros foram à cidade sagrada e pediram a seu sucessor como patriarca que fosse permitido voltarem à Nova Laura. Agraciado com divino discernimento, ele convocou tanto Santo Saba e o abençoado Agapeto e perguntou se era possível que eles fossem admitidos. [125, 10] Agapeto respondeu, ‘Eles corrompem a comunidade ao fomentar as doutrinas de Orígenes e eu preferiria deixar o lugar a misturar esses homens com a comunidade que me foi confiada’. O arcebispo disse, ‘Você fez um juízo bom e aprazível a Deus.’ Então, sendo informados que o arcebispo não [125, 15] lhes daria permissão esse homens voltaram à planície. Quando o abençoado Agapeto tinha bem governado a Nova Laura por cinco anos e então faleceu, os monges de Nova Laura nomearam certo Mamas como superior. Nessa ocasião, Nono e seus companheiros, ouvindo falar da morte de Agapeto e nomeação de Mamas, reapareceram e [120, 20] foram privadamente admitidos por Mamas dentro de Nova Laura, mantendo em suas almas suas perversas ficções, mas guardando-as totalmente em segredo para que não chegassem aos ouvidos dos monges por temor ao nosso santo Saba; pois, enquanto ele esteve vivo, houve só uma confissão de fé entre todos os monges do deserto. Basta o que foi dito até agora sobre os monges de [125, 25] Nova Laura; voltarei ao assunto em sequência às conquistas do ancião de Deus.

Notas:

(43) – Souka ou Antiga Laura era uma das três fundações de Caritão [Chariton]. As numerosas cavernas que formavam o centro do mosteiro podem ser vistas no vale ao sul de Belém, que ainda porta o nome do fundador, Wadi Khureitun. Veja Vailhé, 21, e Chitty, The Desert a City 14-16.

(44) – Era o sítio do antigo mosteiro de Romano [Romanus], mencionado em 49, 12 e 67,17 [Vida de Eutímio]. Está localizado em Kasr el-‘Abd. Ver M. Marcoff e D.J. Chitty, ‘Notes on Monastic Research in the Judean Wilderness 1928-9′; Vailhé 87; Ovadiah 93.

(45) – A influência do patriarca era mais fraca na planície costeira. Durante a vida de Eutímio, o principal centro de origenismo era a região ao redor de Cesaréia (39, 28-28) (n.p 5).

Notas do portal

(3) – O termo aposquista – Aposcistai, ”apartados [da comunhão]”, em tradução livre – designava, segundo Cirilo em 47, 7; o principal grupo monofisista de oposição a Eutímio após o concílio de Calcedônia.

(4) – A enciclopédia Judaica, em seu verbete dedicado à alma expõe diversas formas de pré-existência concebidas no judaísmo. Filo de Alexandria e alguns apócrifos e deuterocanônicos (sb 8-19) podem remeter à ideia de pré-existência e a distinção entre boas almas as dos ímpios, sendo que estas podem vir ao mundo com castigo. A literatura rabínica e talmúdica, porém, rejeita a ideia de que o corpo seja prisão da alma e, sim, uma ferramenta de seu progresso. Ela teria sido dada em estado puro e assim deveria ser devolvida, sob ameaça de ser “queimada” caso não o fosse. Tanto apócrifos como a literatura rabínica defendem um número de almas fixo, formadas durante a criação do mundo. Segundo esta última, o messias não virá até todas as almas passarem por uma experiência terrena; já conforme alguns apócrifos, nem todas encarnariam. Na filosofia judaica, tem-se Saadia [Gaon] como oponente da pré-existência, defendendo a tese da formação conjunta da alma e do corpo. Sugiro a leitura do link acima para os que quiserem mais detalhes e as referências das citações. Quanto a crença em múltiplas existências terrenas no judaísmo, ela se difundiu mais tardiamente na Idade Média, sugiro a leitura de Transmigração de almas da mesma enciclopédia.

A quem quiser ler as fontes apócrifas, sugiro cuidado no livro de Enoque eslavônico (II Enoque ou Livro dos Segredos de Enoque) citado pela enciclopédia: a passagem citada (XXIII, 5) existe apenas na recensão longa do texto. A recensão contida na compilação de Maria Helena de Oliveira Tricca, “Apócrifos – Os Proscritos da Bíblia”, vol. I, é a curta. Todos os textos em inglês que encontrei pela internet também disponibilizam apenas a versão curta. O texto longo está disponível, em inglês, em “The Old Testament Pseudoepigrapha”, vol. I, de James H. Charlesworth. Em nota de rodapé, Charlesworth indaga de tal passagem foi adição cristã (no texto longo, por similaridade de uma palavra eslavônica com Mt 24:34) ou omissão por censura ortodoxa (no curto) e pende a balança para esta última hipótese devido ao II Concílio de Constantinopla. Na verdade, diria eu, a pré-existência já fora rechaçada 150 anos antes, durante a primeira crise origenista. O concílio de 553 apenas reafirmou isto pela crise gerada pelo monges de Nova Laura, como será visto mais adiante.

(5) Eutímio teve uma vida muito longa para expectativa da época (376-473) e foi contemporâneo da primeira crise origenista e teve um encontro com o jovem Saba. De 39, 20 a 40, 15; Cirilo narra a oposição de Eutímio a seis heresias de sua época, a saber:

  • Arianismo – Derivada a partir de uma fórmula criada pelo presbítero Ário de Alexandria (séc. IV) para conciliar a divindade de Jesus com a mutabilidade da criação. Segundo ele, no princípio haveria apenas o Pai que em determinado instante criara o Filho e por meio dele criou todas as coisas. Cristo, portanto, era uma entidade divina, mas subordinada ao Pai como primeiro da criação. E foi ele que deu vida a tudo o mais – sendo o Espírito, analogamente, sua primeira criatura – e tornou-se humano. Flertava com o subordinacionismo de Orígenes e se dividia em três correntes: Anomoeanos (“Dissimilar”) ou ultra-arianos – ressaltavam a separação entre Pai e Filho -, homoeanos (“Similar”) ou arianismo propriamente dito, e os semiarianos ou homoiousianos (“de substância semelhante”) – que aproximavam a divindade do Filho à do Pai. Ainda era doutrina adotada pelos povos bárbaros conversos à época de Justiniano, como os ostrogodos da Itália e vândalos na África;
  • Monofisismo – Fundada no séc. V pelo religioso bizantino Eutíquio, prega que Cristo possuía apenas a natureza divina, que absorveu a humana. Supõe-se que a Imperatriz Teodora foi partidária dele.
  • Maniqueísmo – Fundada por Manes (ou Mani) no império Parta do séc. III, tinha uma concepção dualista do mundo, com espírito e matéria representando respectivamente o bem e mal.
  • Nestorianismo – Fundada pelo patriarca de Constantinopla Nestório no séc. V, advogava a total independência entre as naturezas humanas e divinas de Cristo, como pessoas unidas, mas distintas.
  • Origenismo – Conjunto de doutrinas atribuídas ao teólogo Orígenes de Alexandria do século III. Daria para escrever um livro discutindo sobre exatamente o que ele defendeu e o que foi feito de seus ensinos depois. E isto tal foi escrito: como observou a historiadora Elizabeth A. Clark – The Origenist Controversy -, cada personagem envolvido na primeira crise origenista (séc. IV), seja ele antagonista ou defensor, tinha sua própria concepção de quais eram os pontos polêmicos de Orígenes. Para Eutímio, segundo Cirilo, dois pontos do origenismo de sua época eram nevrálgicos: a pré-existência das almas – com sua encarnação devido a pecados cometidos num estado de original beatitude – e restauração de todos os decaídos ao fim dos tempos. No século VI, tornou-se comum entre os monges palestinos uma versão mais radical do origenismo feita pelo asceta Evágrio Pôntico (séc. IV).
  • Sabelianismo – Atribuída ao religioso Sabélio no séc. III, em Roma. Advogava que a Trindade não era constituída por três pessoas, mas por “modos” ou atributos de Deus.

Segundo a nota (59) referente à vida de Eutímio, seria difícil que este topasse com um sabeliano ou ariano pelo deserto palestino, sendo provável que Cirilo as tenha incluído para enfatizar a ortodoxia dele.
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Aqui há uma série relatos contando milagres feitos por Saba, fundação de cenóbios, morte de alguns personagens, etc. O esquema comparativo de Binns entre Saba e Eutímio volta em sua primeira ida à Constantinopla.

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50. Missão a Constantinopla

[139, 20] No sexagésimo terceiro (n.p. 6) ano da vida do grande Saba [511 d.C.], o arcebispo Elias, desejando enviar alguns dos superiores monásticos à Constantinopla, convocou nosso padre Saba e implorou-lhe que fosse com eles e lutasse com toda sua força para proteger a mãe de todas as igrejas do distúrbio, já que o imperador [139, 25] Anastácio [Anastasius], em absoluto exaspero, estava tentando inverter e derrubar todo o estado das igrejas da Palestina. A causa do exaspero e fúria do imperador contra o arcebispo relatarei em poucas palavras, indo direto às suas origens.

Quando o abençoado Elias obteve a sé de Jerusalém, [140.] no terceiro ano do reinado de Anastácio, a Igreja [494 d.C.] de Deus estava em confusão por meio de tripla divisão (60). os bispos de Roma estavam em rixa com os de Bizâncio por causa da inclusão nos sagrados dípticos do nome de Acácio [Acacius], que [140,05] fora bispo de Constantinopla, com o pretexto de ele não seguir o próprio rigor deles, enquanto os de Bizâncio estavam em rixa com os de Alexandria com o pretexto de sua anatematização do Concílio de Calcedônia (n.p. 7) e aceitação da comunhão de Dióscoro, que fora deposto por ele; Elias estava em comunhão [140, 10] apenas com Eutêmio [Euthemius] de Bizâncio, ao passo que os ocidentais, como se disse, estavam em dissidência e Paládio [Palladius] de Antioquia, para agradar o imperador, anatematizara o decreto dogmático de Calcedônia e aceitara a comunhão dos alexandrinos. Nesta conjuntura, bispo Eufêmio [Euphemius] de Constantinopla, que dera aprovação sinódica ao decreto dogmático de Calcedônia, fora [140, 15] retirado de sua sé com base em falsas acusações. Enquanto os bispos de Alexandria e de Antioquia aprovaram a expulsão de Eufrêmio, Elias, que ainda não completara seu segundo ano como bispo, sentiu-se incapaz de dar sua aprovação; mas ao saber o ordenado ortodoxo Macedônio [Macedonius] a partir das cartas sinódicas dele, aceitou-o em sua comunhão, um fato que [140, 20] de início transtornou consideravelmente o imperador (61). Desta maneira, houve um acordo entre Macedônio e Elias. Mas quando, após a morte de Paládio, Flaviano [Flavian] obteve a sé de Antioquia e estava reconciliado com eles, o imperador, valente apenas contra a lealdade, não poderia suportar a concórdia deles, ficando então loucamente ansioso para bani-los. Primeiramente, acusando Macedônio com várias acusações falsas, [141.] expulsou-o se sua sé e promoveu Timóteo [Timothy] a ela; exigiu o assento de Flaviano e Elias, que aprovaram as cartas sinódicas de Timóteo, mas não a deposição de Macedônio. Nesta conjuntura, com o imperador veementemente agitado contra ambos, uma furiosa [141, 5] tempestade envolveu ambas as igrejas.

Foi por causa disso que o abençoado Elias, como foi dito, enviou nosso padre Saba e outros superiores com ele à Constantinopla, com a seguinte carta ao imperador: “A elite dos servos de Deus, bons e leais e líderes no deserto inteiro, incluindo nosso senhor Saba, o colonizador e guardião de nosso deserto [141, 10] e eminência sobre toda a Palestina, eu enviei para rogar a sua Majestade.” Assim foi a carta de Arcebispo Elias. Nosso padre Saba obedeceu à hierarquia pela avidez em ajudar, se pudesse, a fé católica ortodoxa que [141, 15] na ocasião fora atirada numa tempestade e estava em perigo. Quando já estava a caminho e completando sua viagem, o imperador Anastácio, possesso por uma incontrolável fúria contra os patriarcas Flaviano e Elias, deu ordens para que houvesse um concílio em Sidon Oriental [Sidon of the Oriental] e [congregasse os] bispos palestinos, e que os presidentes do concílio fossem Sotérico da [141, 20] Cesaréia da Capadócia [Soterichus of Caesarea of Cappadocia] e Filoxeno de Hierápolis [Philoxenus of Hierapolis], que se notabilizaram em anatemizar o dogmático decreto de Calcedônia e abraçando Eutíquio [Eutiques] e Dióscoro e suas heresias.

Notas:

(60) O seguinte breve esboço da política eclesiástica assina os problemas encarados pelo imperador. De um lado estava Roma, para quem o Concílio de Calcedônia era uma essencial definição da fé. Do outro estava Alexandria e seu território do Egito, que reverenciava Dióscoro e rejeitava Calcedônia. A política de Anastácio foi baseada no Henoticão de Zenão [Zeno’s Henoticon] que buscou reunir o império rejeitando Calcedônia. Porém ele apenas conseguiu antagonizar com Roma e falhou em agradar os mais estritos egípcios monofisistas. Um resumo apropriado desta fase da política imperial está em Frend, Rise of the Monophysite Movement 184-220.

(61) Um problema posterior encarado por Anastácio foi que os monges e cidadãos de Constantinopla tendiam a apoiar o Concílio de Calcedônia. Eufêmio (490-496) também era um forte calcedonense. Macedônio, por outro lado, apesar de simpático à Calcedônia, estava preparado para aceitar o Henoticão.

Notas do portal:

(6) Aqui há uma incoerência na idade de Saba. No capítulo 36 é afirmado que ele já teria 69 anos quando fundou Nova Laura [507 d.C.]. Como no capítulo I o nascimento de Saba é datado “no décimo sétimo [ano do] consulado de Teodósio [439 d.C.]”, conclui-se que a idade correta seria 73 anos. Não sei se estava assim no original ou foi erro na tradução inglesa.

(7) O Concílio de Calcedônia (451 d.C.) teve por principal tema o monofisismo. Seu “decreto dogmático” estabeleceu que na única pessoa de Cristo haveria tanto a natureza humana quanto a divina.
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51. Primeira Entrevista de Saba com Anastácio.

[A correção de sua fé reconhecida e sua autoridade confirmada por, entre outros, representantes da família imperial]

Quando o nosso santo padre Saba com os padres enviados com ele chegaram à cidade imperial e avisaram o [142.] imperador, foram todos convocados a sua presença. Deus, que glorifica aqueles que o glorificam, desejando manifestar a graça que acompanhou seu servo Saba, dispôs que o seguinte deveria acontecer. Assim que entraram no palácio a alcançaram o chamado [142, 5] silentiarion (62), os silentiarii que estavam às portas, tendo admitido todo o restante, barraram a grande eminência que, por humildade de espírito, julgou-se ser o último, eles não o admitiram pois parecia um mendigo e mais repugnante que tudo, quando o viram trajando trapos sujos e todos remendados. O imperador Anastácio deu aos [142, 10] padres calorosas boas-vindas e perguntou pelo santo Saba louvado na carta. Os padres olharam para todos os lados, não sabendo como ele tinha se separado deles. Quando o imperador ordenou que cuidadosa busca por ele fosse feita e uma confusão surgiu entre os cubicularii, os silentiarii saíram e o encontraram [142, 15] afastado num canto do vestíbulo chamado de Consistório, recitando sozinho os Salmos de Davi. Conduzindo-o, deixaram-no entrar. Quando entrou por uma cortina, o imperador viu uma figura angélica despontando no caminho para ele. Levantando-se e recebendo-o com a devida honra, [142, 20] convidou a todos a se sentar; pois adorava monges, mesmo quando induzido por alguns patifes a fazer guerra contra a correta fé (63).

Então vários tópicos foram levantados, cada um dos outros superiores se mostrou preocupado com seu próprio mosteiro, como um deles que demandou pelas terras ao redor de seu mosteiro e mais um que batalhou para obter alguma outra solicitação imperial. [142, 25] O imperador, após obsequiar cada um deles, disse a São Saba, ‘E quanto a você, venerável padre, se não tem pedido algum, por que empreendeu tão incômoda viagem?’ O ancião respondeu, ‘Eu vim aqui [143.] principalmente para venerar os pés de Sua Piedade, enquanto ainda estou no corpo, e em seguida para implorar-lhe, em nome da cidade sagrada de Deus – Jerusalém – e de seu pio arcebispo, que conceda a paz para nossas igrejas, com os clérigos nelas sendo preservados do aborrecimento. Se por [143, 5] causa da paz das igrejas pudermos viver na tranquilidade em que as virtudes são naturalmente alcançadas, rezaremos dia a noite por Sua Serenidade, pois estaremos confiando em suas pias leis.’ O imperador ordenou que mil solidi fossem trazidos e disse, ‘Leve isto, padre, e reze por mim, pois soube que toma conta de [143, 10] muitos mosteiros no deserto.’ O grande Saba respondeu, ‘Gostaria de passar o inverno aqui que me fosse permitido venerar Sua Piedade.’ Nesse momento, o imperador deixou os superiores retornarem à Palestina, mas convidou-o para [143, 15] passar o inverno lá e entrar no palácio livremente, sem ser anunciado.

Notas:

(62) O silentiarion é um aposento da mesma forma que o consistório – um vestíbulo no qual o imperador recebia os visitantes. Nesta ocasião, ele parece tê-los recebido apenas numa parte interna do vestíbulo. Os cubicularii eram os guardas e os silentiarii eram os servidores com a tarefa de manter a ordem.

(63) A opinião de Cirilo quanto a Anastácio não é clara. O imperador é tanto o monofisista que perturba a igreja (139, 25 e 141,17), mas também o adorador de monges que atende aos pedidos de Saba (142,10 e 20). Anastácio, com a idade 61 à sua acessão, era tanto pio quanto pragmático. Detestava mudança e ficou impaciente com os desentendimentos quanto à Calcedônia. (Evágrio [Escolástico], História Eclesiástica, 3.30).
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52. Segunda Entrevista com Anastácio.

Alguns dias depois, o imperador o convocou e disse, ‘Seu arcebispo vem se sendo um defensor do Concílio de Calcedônia, que aprovou as doutrinas de Nestório. Ele, além disso, retirou Flaviano de Antioquia e o trouxe para perto dele [143, 20] mesmo. Em consequência, quando o decreto dogmático de Calcedônia estava prestes a ser anatematizado pelo concílio recentemente feito em Sidão, só ele frustrou o ato, em coligação com Flaviano de Antioquia. E mais, quanto às suas próprias opiniões, ele enganou Nossa Majestade em sua carta para nós, onde ele usou as seguintes mesmíssimas [143, 25] palavras: “Rejeitamos toda heresia que introduza alguma novidade contrária à fé ortodoxa; nem aceitamos o que foi feito em Calcedônia, por causa dos [144.] escândalos que resultaram dele.” Com estas palavras ele nos enganou quanto às suas próprias opiniões, quando decretamos que o concílio deveria ser dissolvido sem nenhum resultado. Estamos bem cientes, porém, não menos agora do que antes, quando ele se recusou a aprovar os decretos de deposição dos nestorianos Eufêmio e Macedônio, [144, 5] que ele é um defensor do Concílio de Calcedônia e de toda a heresia nestoriana. Consequentemente, decretamos sua deposição do episcopado como um corruptor e indicamos um homem que é ortodoxo e digno daquela santa e apostólica sé, a fim de que a venerada região que abrigou a Deus não seja maculada pelas doutrinas de Nestório.

[144, 10] Assim falou o imperador. Nosso santificado Saba respondeu. ‘Que Sua Serenidade descanse totalmente assegurado que o arcebispo de nossa santa cidade de Deus, educado nas doutrinas da piedade pelas antigas eminências e miraculosos padres do deserto, rejeita igualmente [144, 10] tanto a divisão de Nestório quanto a confusão de Eutíquio e, seguindo o caminho intermediário da Igreja ortodoxa, não permite desvio, na expressão da escritura, nem à direita, nem à esquerda (cf. Dt 5:32). Sabemos que ele declara as divinas doutrinas de São Cirilo, arcebispo de Alexandria e anatematiza os que se opuseram ou se opõem as suas [144, 20] doutrinas. Nós, portanto, imploramos a Sua Serenidade para proteger da perturbação a cidade santa de Jerusalém, na qual o grande mistério da piedade foi revelado, com nossa hierarquia permanecendo sem distúrbios.’ Percebendo a santidade, integridade e entendimento espiritual do ancião, o imperador [144, 25] disse, ‘Na verdade, venerável, padre, bem está escrito na divina Escritura que “ o que caminha na integridade caminha confiante (Pr 10:9).” Mas reze por nós e não fique ansioso. Pelo amor de sua Santidade não decretamos nada contra seu arcebispo e lhe farei tudo por você quando enviá-lo a seu destino’.
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53. Ele recebe as damas da corte

Deixando a presença do imperador, o ancião foi ver a Augusta Ariadne (64) e, após abençoá-la, exortou-a a manter-se firme na fé de seu pai o grande santo imperador Leão. Ela lhe respondeu, ‘Bem falas, venerável padre, como existe Um que nos escuta’. Ao deixar sua presença, ele deixou a cidade, evadindo-se de seu tumulto e se estabeleceu no subúrbio de Rufino [Rufinus], arrendado por Demonstrato [Demonstratus] (65). A patrícia Juliana, a neta do imperador Valentiano (66), e Anastácia [Anastasia], a esposa do patrício Pompeu [Pompeius], que atualmente é ilustre no Monte das Oliveiras por conquistas monásticas (67), visitavam-no frequentemente onde quer que estivesse, para lhe mostrar seu apreço e se entreter com seu divino ensino; pois estas damas eram de grande fé destacada pela e ortodoxia e outras virtudes.

Notas:

(64) – Ariadne era a filha de Leão I (475-474) e esposa, primeiramente, de Zenão e então, após sua morte, de Anastácio. Ela morreu em 515.

(65) – O subúrbio de Rufino presumivelmente se encontrava no estado de Rufiniana [Rufianae], próximo à Calcedônia, onde o famoso mosteiro de Hipácio [Hypatius] se situava. Quanto à obscura frase traduzida aqui por ‘arredado por Demonstrato’ ver A. Camero, ‘Cyril of Scythopolis, V. Sabae 53′.

(66) – Anícia Juliana era a filha do imperador do Ocidente Olíbrio e Placídia, filha de Valentiano III (imperador 425-455). Após sua morte em 527-8 seus eunucos foram à Palestina para se tornarem monges de Saba (171, 6-25).

(67) – O marido de Anastácia, Pompeu, era calcedonense e amparou o patriarca Macedônio de Constantinopla em seu exílio. Anastácia é mencionada mais abaixo fornecendo a Cirilo informações sobre a vida de Saba (147, 6-9).
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54. Terceira Entrevista com Anastácio.

Convocado novamente pouco tempo depois, foi [145, 15] à presença do imperador e, quando a questão da cidade santa foi levantada, fez o seguinte pedido: ‘Todo o Império Romano agradece Sua Serenidade por já nos ter libertado nestes treze anos do iníquo collatio lurtralis (68). Agora imploramos a ti para que reduza o superfula dicriptio (69) dos indigentes e endividados, imposto sobre a santa Igreja [145, 20] da Ressurreição e os proprietários de terras da cidade santa. Descreverei a razão deste superfula discriptio. Os então tractores e vindices dos impostos da Palestina, cobrando uma centena de libras de ouro dos pobres e endividados que não poderia ser obtida, foram obrigados a transferir essa cobrança à [145, 20] associação dos contribuintes de Jerusalém na proporção das posses de cada membro. Quando as cem libras foram divididas da maneira relatada, a santa Igreja da Ressurreição, os demais lugares de adoração e proprietários de terras foram registrados para superfula discriptio. Este é o superfula discriptio que pedimos para ser reduzido’. Cedendo a este pedido por respeito à [146.] santidade do ancião, o imperador chamou o prefeito pretoriano Zôtico [Zôticus] e lhe deu instruções para a redução do dito superfula discriptio no registro de impostos da Palestina e a aplicação à cidade santa desta concessão.

Quando tal fora aprovado, um certo Marino [Marînus] (70), um homem muitíssimo [146, 5] injusto, que pela anuência de Deus estava controlando os assuntos de estado e guiando e influenciado a mente facilmente maleável do imperador conforme seus próprios desejos, soube da decisão do imperador quanto à concessão. Ele imediatamente entrou e impediu o acerto desta concessão de prosseguir, [146, 10] chamando o povo da cidade santa de nestorianos e judeus e indignos dos favores do imperador. Nesse instante São Saba, realmente cheio do Espírito Santo, disse a Marino, ‘Pare de desfazer a boa vontade do imperador, pare sua guerra contra as santas igrejas de Deus. Pare com sua grande avareza e malícia, e tome [146, 20] cuidado. Pois se você me ignorar, em pouco tempo causará a si mesmo terrível infortúnio e trará um perigo nada pequeno a Sua Majestade e à toda cidade. Você será despojado de tudo e sua casa arderá em chama’. Tendo dito isso a Marino na presença do imperador com sagacidade e franqueza, o santo sábio pediu para partir e voltar à Palestina. Recebendo mil solidi adicionais da mão do imperador (71) e pedindo licença, partir de navio [512 d.C.] para a Palestina em maio da quinta indicção.

Assim foi como, na época de Anastácio, foi evitada a remissão do superfula discriptio para os indigentes e endividados [146, 25]. Apesar disso, porém, ele foi abrandado no pio reinado de Justino, conforme uma petição de nosso padre Saba e outros superiores do deserto, e uma [147.] completa remissão do restante ocorreu no atual e por Deus protegido reinado de Justiniano através da mediação do padre Eusébio [Eusebius]; do qual trataremos mais tarde. A profecia endereçada pelo ancião de Deus a Marino não falhou: poucos meses depois, como resultado de [147, 5] uma revolta popular (72), a casa de Marino ardeu em chamas e cada pormenor da profecia do santo se cumpriu. Isto me foi dito pela madre Anastácia, que trouxe honra ao hábito monástico do Monte das Oliveiras e resplandece com dons divinos, tendo ouvido de seu marido Pompeu, sobrinho do imperador.

Notas:

(68) O pedido para aliviar o fardo dos impostos sobre Jerusalém era uma importante parte da missão de Saba. O collatio lustralis era um imposto cobrado sobre comerciantes e artesãos, e também prostitutas, instituído por Constantino e suprimido por Anastácio em maio [de 512].

(69) O superfula discriptio era uma redistribuição de impostos, no caso a transferência obrigação dos insolventes para a Igreja da Ressurreição.

(70) Marino era um hábil financista. As simpatias monofisistas que Cirilo lhe atribui não o impediram de se tornar prefeito pretoriano no governo calcedonense de Justino I (518-527).

(71) Junto com a prévia doação do imperador, Saba recebeu um total de 2.000 solidi. Teodoro de Petra dá a mesma quantia (A Vida de Teodósio 55,1).

(72) A causa desta revolta foi o uso do acréscimo de Pedro, o Pisoeiro, ao triságio (v. nº. 41) (n.p. 8) na Grande Igreja de Constantinopla em domingo, 4 de novembro de 412 (n.p. 9).

Notas do Portal:

(8) – Pedro, o Pisoeiro, era monofisista e acrescentou ao Triságio: “Que morreu crucificado por nós”. Apesar disto ser passível de uma interpretação ortodoxa, a adição foi controversa na época por insinuar que natureza divina de Cristo teria sofrido sobre a cruz.

(9) Pela própria incompatibilidade de datas, deve ter havido um erro tipográfico, sendo correto o ano de “512”.
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55. Ele Volta de Constantinopla

[147, 10] Nosso padre Saba enviou uma grande quantidade de dinheiro de Bizâncio para seu vilarejo natal, Mutalasca, para que a casa de seus pais fosse transformada na igreja dos santos Come e Damião, o que foi feito.

Um certo Mamas, arquimandrita (n.p. 10) dos monges aposquistas próximos a Eleuterópolis [Eleutheropolis], junto com certo Severo [Severus], líder [147, 15] dos acephaloi (73), tinham ido à Constantinopla combater a fé ortodoxa; lá ele falou todo cheio de si na presença do imperador e teve um áspero desentendimento com o próprio Severo. Nosso padre Saba o trouxe consigo para Jerusalém e lhe pediu veementemente que renunciasse à heresia dos acephaloi e entrasse na comunhão da Igreja católica. Tendo exortado-o nesse sentido, levou-o até o patriarca Elias e conseguiu fazê-lo aceitar o Concílio de Calcedônia e entrar na comunhão da [147, 20] Igreja católica, anatematizando Eutíquio e Dióscoro, e com seu próprio exemplo levar muitos a fazer o mesmo. Isto contribuiu significativamente [147, 25] para a indisposição do imperador com o patriarca Elias.

O ancião de Deus distribuiu o dinheiro que trouxera de Bizâncio aos mosteiros sob sua tutela. Quando os discípulos que estiveram com ele em Bizâncio ficaram muito ressentidos com a distribuição do [148.] dinheiro, disse a eles, ‘Nosso trabalho foi físico, mas eles se esforçaram por nós espiritualmente e Deus nos resgatou por devido às preces deles’. Assim o fez, em minha opinião, seguindo o exemplo de Davi, que distribuiu parcelas iguais aos que tinham lutado na guerra e aos que [148, 5] guardaram o acampamento. (cf. I Sm 30:24)

Notas:

(73) – A denominação acephaloi foi originalmente dada ao grupo extremista de monofisistas no Egito que não reconheciam a autoridade do patriarca Pedro Mongo [Peter Mongus] (480-490). Aqui ela enfatiza a intransigência dos seguidores de Severo.

Notas do Portal:

(10) Arquimandrita é um título honorífico dado pelas igrejas orientais, ortodoxas ou católicas, aos seus sacerdotes dignitários. Etimologicamente, significa “superior do mosteiro” (arché + mandros). O equivalente latino é o título de Monsenhor.
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Os demais capítulos falam da revolta dos acephaloi, a morte do patriarca Elias e do imperador Anastácio, a fundação do mosteiro dos eunucos (v. nota 66) e diversos milagres atribuídos a Saba. A narrativa só retorna a falar dos origenistas a partir da segunda ida de Saba a Constantinopla, já sendo Justiniano o imperador. Apesar de não estar na sinopse de Binns, voltamos a transcrever a partir desse episódio, para um melhor entendimento do assunto.

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70. A Revolta Samaritana

Ao começo do 91º ano de vida do nosso santo padre Saba, o santificado Abba Teodósio [Theodosius] chegou ao fim de sua vida em 11 de janeiro da sétima [529 d.C.] indicção, ‘um homem velho e cheio de dias’ (Gn 25:8). Sofrônio [Sophronius], [172.] venerável por seus feitos monásticos, sucedeu-o como superior. No quarto mês após a morte de Abba Teodósio, os samaritanos da Palestina (96) puseram em pé de guerra toda sua raça contra os cristãos e realizaram muitos atos [172, 5] criminosos: pilharam e incendiaram as igrejas que caíram em suas mãos, impiedosamente matando por meio de várias torturas os cristãos que caíram em suas mãos e incendiando propriedades inteiras, especialmente na região de Neápolis [Neapolis]. Logo em seguida, em usurpação coroaram um rei para si mesmos, um tal de Juliano [Julian] de sua raça. Então massacraram o bispo Mamônas de Neápolis e, capturando [172, 10] e chacinando alguns sacerdotes, carbonizaram-nos junto com relíquias dos mártires santos. Fizeram tantos atos tais esses, que as chamadas estradas imperiais ficaram inutilizáveis e intransitáveis para os cristãos. Quando tudo isso chegou aos ouvidos de nosso devotíssimo [172, 15] imperador Justiniano, os mais gloriosos condes (n.p. 11) Teodoro [Theodore] e João [John] receberam ordens para organizar um exército e marchar contra os samaritanos; decorreu uma batalha, na qual Juliano e uma grande massa de samaritanos com ele foram mortos (n.p. 12). Nessa ocasião, Silvano [Silvanus], acima mencionado (n.p. 13), vindo assim que as coisas amainaram para Citópolis sem nenhuma ordem imperial, [172, 20] foi capturado pelos cristãos e queimado no meio da cidade, cumprindo a profecia quanto a ele feita por nosso santificado padre Saba para João, o filho do compulsor, no palácio do bispo. Certo Arsênio [Arsenius], um filho do queimado Silvano e possuidor do título de illustris (97), que [173.] estava naquela época vivendo em Constantinopla e gozava, não sei como, de fácil acesso ao nosso divinamente protegido imperador e à imperadora Teodora, valeu-se da desinformação para incitar suas Devoções à raiva contra os cristãos [173, 5] da Palestina. Nesta ocasião, o arcebispo Pedro com seus bispos subordinados pediu para o nosso padre Saba ir à Constantinopla e implorar ao imperador para conceder remissão das taxas da Primeira e Segunda Palestina, em consideração aos assassinatos e destruição perpetrados pelos samaritanos. Cedendo às solicitações dos bispos, o ancião seguiu para Constantinopla em abril da [530 d.C.] oitava indicção.

Notas:

(96) – O centro da seita [judaica] samaritana se encontrava no monte Gerizim, próximo à Neápolis ou Nablus, No começo do reinado de Justiniano, foi decretada uma legislação contra eles, incluindo uma proibição quanto à herança propriedade, e em 528 foi ordenado que suas sinagogas fossem destruídas. Isto foi o detonador de sua revolta.

(97) Procópio (História Secreta 27, 6-19) dá um relato independente deste Arsênio e seu pai (n.p. 14).

Notas do Portal:

(11) – Em sua origem, a palavra “conde” (do latim comites – “companheiro”) designava um administrador com funções jurídicas e militares. Com a evolução do feudalismo, tornou-se título nobiliárquico.

(12) – A menção é feita no capítulo 61, durante uma ida de Saba à Citópolis. Lá ele encontra um advogado de nome João que lhe fala longamente sobre “Silvano, o samaritano”: um dignitário imperial que estaria “tramando contra os cristãos”. Saba profetiza (ou roga uma praga) dizendo que o destino de Silvano seria como está escrito no salmo 51 (ou 52, dependendo da versão da Bíblia).

(13) – A repressão foi tão violenta, que praticamente aniquilou os samaritanos como etnia e credo [Paulo Johnson, A História do Judeus, parte II, p. 174]. Séculos seguintes de perseguição e assimilação fizeram o resto. Seu número de adeptos hoje não chega a um milhar.

(14) – Procópio – um ácido cronista da corte bizantina – corrobora Cirilo ao acusar Arsênio (senador cuja conversão ao cristianismo teria sido apenas nominal) e Silvano de maquinações anticristãs em Citópolis, estimuladas pelo status administrativo de sua família. Procópio, porém, acusa o casal imperial de leniência.
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71. Saba na Corte de Justiniano.

Tendo o patriarca enviado previamente cartas anunciando a chegada de Saba de Deus, nosso divinamente protegido imperador, entusiasmado, enviou as galeras imperiais ao encontro dele; com elas partiram aos seu [173, 15] encontro o patriarca Epifânio, padre Eusébio e o bispo Hipácio [Hypatius] de Éfeso. Recebendo-o, eles o levaram até o imperador e Deus mostrou a graça que acompanha seu servo ao imperador, como fizera [173, 20] previamente na época de Anastácio. Pois assim que ele entrou no palácio com os bispos mencionados e adentrou as cortinas, Deus abriu os olhos do imperador: ele viu a irradiação do favor divino na forma de uma coroa brilhante e a emitir feixes de luz parecidos com os do Sol a partir da cabeça do ancião. Apressando-se, cumprimentou-o com [173, 25] reverência (98), beijando sua santa cabeça com lágrimas de emoção; ao obter sua benção, tomou de sua mão a petição da Palestina e insistiu para que entrasse e abençoasse a Augusta Teodora, que o saudou respeitosamente e fez este pedido: ‘Ore por mim, [174.] padre, para que Deus me conceda um fruto do ventre’. O ancião respondeu, ‘Deus, o Senhor de tudo, zelará por teu império.’ A Augusta disse outra vez, ‘Ore por mim, padre, para que Deus me dê um filho.’ O ancião disse em resposta, ‘O Deus da [174, 5] glória manterá teu império em santidade e vitória.’ A Augusta se afligiu por sua recusa em lhe conceder seu pedido. Então, quando deixou a presença dela, os padres expressaram suas dúvidas ao perguntar, ‘Por que você irritou a Augusta não orando como ela pediu?’ O ancião lhes respondeu, ‘Tenham comigo a esperança, padres, de que um fruto nunca [174, 10] virá de seu ventre, por temor que ele seja tragado pelas doutrinas de Severo e cause convulsão à Igreja pior que a de Anastácio’. (99)

Eles foram convidados a se hospedar no palácio. Quando o divinamente protegido imperador recebeu do ancião de Deus a petição das igrejas da Palestina, sua raiva [174, 15] contra os samaritanos voltou. Ficou motivado a emitir um decreto ou lei que cessasse as assembleias samaritanas, que os expulsasse de todo o país, e que não tivessem direito à herança de seus correligionários ou a fazer transações entre si mesmos na forma de bens; também decretou a pena de morte contra eles, especialmente contra seus líderes culpados de atos criminosos (n.p. 15). Nessa ocasião, com o [174, 20] imperador ordenando sua execução, Arsênio desapareceu para um tempo; mas depois se refugiou com o abençoado Saba, enquanto ainda permanecia na cidade imperial, e foi batizado, tanto ele como toda a sua casa.

Notas:

(98) – A saudação de Justiniano com ‘reverência’ ( proskynesis) invertia o relação costumeira pela qual se esperava que o imperador recebesse proskynesis.

(99) – Teodora veio de um ambiente humilde e era leal à fé monofisista das massas. Protegeu e apoiou Severo e os monofisistas, e influenciou Justiniano a afrouxar sua oposição em 530. Ver Frend, Rise of the Monophysite Movement 260-263.

Notas do portal:

(15) – Curiosamente, na nota (96) é informado que samaritanos já haviam perdido o direito à herança antes da revolta (ou ela se referiria apenas à herança oriunda de não-samaritanos). Cirilo não esclarece que os samaritanos se revoltaram justamente por causa da opressão imperial.
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72. Ele apresenta as Petições ao Imperador

Alguns dias depois o imperador convocou o santificado Saba e lhe disse, ‘Soube, padre, [175.] que você fundou muitos mosteiros no deserto. Para qualquer um deles que deseje, peça uma renda para as necessidades de seus internos e nós a providenciaremos, a fim de que possam orar pelo estado confiado a nossos cuidados’. Saba respondeu: ‘Os que oram por Sua Piedade não [175, 5] precisam de uma renda, pois seu quinhão e renda é o Senhor, que no deserto fez chover pão do céu e espalhou codornizes para um povo desobediente e refratário (cf. Ex. 16:4-13). Entretanto, todo piedoso imperador, para o amparo das igrejas da Palestina, pedimos uma [175, 10] remissão de impostos, reconstrução dos edifícios sacros queimados pelos samaritanos e assistência aos esmagados e espoliados cristãos da Palestina. Também imploramos que funde um hospital na cidade santa para o tratamento dos [175, 15] forasteiros adoentados e que construa e mobílie a igreja da Mãe de Deus, cujas fundações foram feitas algum tempo atrás pelo nosso arcebispo Elias, pois isto é especialmente adequado para Sua Devoção; e quanto às incursões dos sarracenos, imploramos a Sua Piedade que mande o gloriosíssimo Sumo [Summus] (n.p. 16) construir às custas públicas um forte no deserto ao pé dos mosteiro fundados por seu humilde servo. Acredito que Deus, em retribuição a estes [175, 20] cinco atos seus de agrado a ele, acrescentará ao seu império a África, Roma e todo o restante do império de Honório (n.p. 17), que foi perdido pelos imperadores que reinaram ante de Sua toda-piedosa Serenidade, a fim de que possa extirpar a heresia ariana, junto com as de Nestório e Orígenes, e liberte a cidade e a [176.] Igreja de Deus do veneno das heresias’.

Explicarei por que ele pediu ao imperador para expulsar essa três heresias em particular. Ele mencionou a heresia de Ário, porque àquela época os [176, 5] godos, visigodos, vândalos e gépidas, que eram arianos, estavam governando todo o ocidente e ele sabia com certeza por meio do Espírito que o imperador iria conquistá-los. Ele mencionou a heresia de Nestório por que alguns dos monges foram vistos tomando partido de Teodoro de Mopsuéstia [Theodore of Mopsuestia] quando estava em conflito com os aposquistas na basílica (100). Incluiu a [176, 10] destrutiva heresia de Orígenes na rejeição das distas heresias, pois um dos monges com ele, bizantino de nascimento e chamado Leôncio [Leontius] (101), que foi um dos admitidos com Nono dentro de Nova Laura após a morte do superior Agapeto, fora encontrado adotando as doutrinas de Orígenes; apesar de alegar [176, 15] apoiar o Concílio de Calcedônia, ele foi detectado tendo as opiniões de Orígenes. Ao ouvir isso e lembrando das palavras do abençoado Agapeto, nosso padre Saba, agindo com severidade, expulsou tanto Leôncio quanto os com as opiniões de Teodoro e os excluiu de sua companhia, e pediu ao imperador [176, 20] para expulsar ambas as heresias.

Notas:

(100) – Uma série de discussões ocorreu na capitação entre calcedonenses e monofisistas em 530-531. Justiniano esperava que isso levasse a uma aceitação de Calcedônia pelo monofisistas, mas ele ficou desapontado. A discussão se prolongou por um ano (Zacarias [Zacharias], História Eclesiástica 9-15). Por causa do temor que Calcedônia promovesse uma cristologia difisista, seus defensores estavam vulneráveis à acusação de serem nestorianos.

(101) – Um punhado de problemas literários e históricos rodeia a figura de Leôncio. Além do Leôncio de Cirilo, sabemos Leôncio, um monge palestino, que esteve presente em 536 no Sínodo de Constantinopla, um Leôncio, o eremita, que escreveu vários livros teológicos e um Leôncio que estava associado com João Maxêncio [John Maxentius]. Minha opinião é que os três primeiros Leôncios eram uma mesma única pessoa. Isso faz do Leôncio de Cirilo um formidável escritor polêmico e um participante ativo na política eclesiástica de Constantinopla. Uma abordagem completa do pensamento e dos problemas históricos envolvendo Leôncio está em D.B. Evans, Leontius of Byzantium, apesar de suas descobertas terem sido criticadas por, entre outros, B. Daley, ‘The Origenism of Leontius of Byzantium‘.

Notas do Portal:

(16) – Duque Sumo (Dux Summus). “Duque” (do latim Dux – “condutor”) assim como “conde” era um título administrativo em sua origem, referendo-se a comandantes militares provinciais.

(17) – Filho de Teodósio a quem coube a metade ocidental do Império Romano em sua última e definitiva divisão (395 d.C.). Seu irmão Arcádio reinou sobre o oriente.
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73. Essas Petições São Atendidas

Todas essas petições de nosso padre Saba foram satisfeitas sem atraso por nosso piosíssimo imperador e todas as profecias dele foram realizadas pelo benevolente Deus, como descobriremos claramente pelo que vem a seguir. Primeiro, [176, 25] ordens imperiais foram enviadas ao arcebispo Pedro e aos governadores da Palestina, decretando que os bispos Antônio de Ascalão e Zacarias de Pela [Pella] inspecionassem as construções [177.] queimadas pelos samaritanos na Primeira e Segunda Palestina, e que treze mil libras em moedas de ouro fossem devolvidas dos impostos da nona e décima indicção [530/2 d.C.] na proporção do dano sofrido em cada lugar. Em seguida, ordenou que eles inspecionassem as casas de [177, 5] oração queimadas e determinassem os montantes a serem dados para a restauração de cada edifício sacro, e que esses montantes fossem providos a partir ou de fundos públicos ou de propriedade dos samaritanos pelo eminente conde Estevão [Stephen], que também recebeu a ordem de acudir os bispos em qualquer [177, 10] auxílio que eles precisassem. Quanto à terceira petição do ancião, ordenou que um hospital de cem leitos fosse construído no centro da cidade santa (102), concedendo uma renda livre de imposto de 1850 solidi pelo primeiro ano; ordenou que o mesmo hospital fosse subsequentemente expandido para duzentos leitos, acrescentando a mesma renda, periódica e [177, 15] isenta de impostos. Ele demonstrou grande zelo em cumprir a quarta petição do ancião e enviou um arquiteto chamado Teodoro à Jerusalém para construir a nova igreja da santa mãe de Deus e eternamente virgem Maria, ordenando que os oficiais do tesouro da Palestina providenciassem dinheiro para a construção; embora designando a autoridade global ao [177, 20] arcebispo Pedro, encarregou o bispo Baraco de Bacata [Barachus of Bacatha] com a supervisão dos trabalhos de construção. E assim, por meio do zeloso uso de grande mão-de-obra, a nova igreja da mãe de Deus e eternamente virgem Maria, digna de todo o louvor, foi em doze anos construída, ricamente fornida e consagrada (103). É supérfluo [177 ,25] descrever o tamanho, o fascinante esplendor e a rica decoração deste venerável edifício, já que ele se encontra exposto aos nossos [178.] olhos e ultrapassa todas as antigas vistas e relatos que maravilham os homens e os gregos deixaram registradas em suas histórias. Este foi o fruto da quarta petição do Saba de Deus Atendendo também à quinta petição [178, 5] do Saba de Deus, nosso devotíssimo imperador enviou um decreto a Sumo ordenando que Abba Saba fosse provido com mil solidi da renda da Palestina para a construção de um forte e com uma guarda militar para a proteção de seus mosteiros, mantida com fundos públicos.

Enquanto nosso divinamente protegido imperador estava empenhado [178, 10] nesses problemas junto com o questor Triboniano [Tribonian] (104), na chamada Magnaura (105), o abençoado Saba estava um tanto afastado e recitava os salmos davídicos para si mesmo, realizando o ofício divino da terceira hora. Um de seus discípulos chamado Jeremias, diácono de Grande Laura, veio [178, 15] até ele e disse, ‘Honrado padre, enquanto o imperador está demonstrando tanto zelo em atender suas petições, por que você se mantém de longe?’ O ancião lhe respondeu, ‘Eles, meu filho, estão fazendo o trabalho deles. Façamos o nosso quando chegar nossa vez’.

Notas:

(102) – Este edifício foi construído ao lado da nova igreja da Santa Mãe de Deus. Procópio faz referência a ele (Das Construções 5.6.45).

(103) – A consagração desta igreja deu a Cirilo uma desculpa para ir a Jerusalém. Ver 71, 17-19. [Consta na Vida de Eutímio].

(104) – Triboniano foi um proeminente membro da corte de Justiniano. Ele ajudou na compilação do Corpus Iuris de Justiniano.

(105) – O prédio no palácio onde embaixadores estrangeiros eram costumeiramente recebidos.
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74. Saba Volta à Palestina

O imperador, após fazer esses preparativos [178, 20] e dar seu edito ao ancião, deixou-o seguir em paz. Deus deu ao imperador uma recompensa infinita ao cumprir a profecia do ancião. Pois o imperador alçou dois troféus em curto período de tempo ao ser coroado com duas vitórias tais que nunca foram alcançadas por seus predecessores; recuperou a [178, 25] África e Roma do jugo de usurpadores e viu dois reis, Vitige de Roma e Gelimer [ou Gelimero] da África, trazidos à Constantinopla. Assim, em curto período de tempo ele recuperou para o Império Romano metade da terra e mar; e após libertar todo o ocidente da [179.] escravidão dos ditos usurpadores que eram arianos, emitiu um decreto imperial impondo que as igrejas arianas de qualquer área fossem destruídas, seguindo as ordens, ou ao menos a profecia, do ancião de Deus. Além disso, esforçando-se [179, 5] nobremente, derrubou e anatematizou as heresias de Nestório e Orígenes, ambas por editos que emitiu e através do quinto santo concílio ecumênico recentemente organizado em Constantinopla; mas disso trataremos mais tarde.

O ancião de Deus, após expulsar de sua comunidade, como se disse, tanto Leôncio de Bizâncio e os adeptos de Teodoro de Mopsuéstia e [179, 10] os deixando em Constantinopla, tomou um navio de volta para a Palestina no mês de setembro da nona indicção [530 d.C.]. Chegando em Jerusalém, publicou o edito imperial e distribuiu para seus mosteiros o dinheiro que trouxera de Bizâncio. Com isso, [179, 15] o diácono Jeremias mencionado acima, aborrecido com a distribuição do dinheiro, deixou a Grande Laura e se estabeleceu num desfiladeiro do deserto cinco estádios ao norte [do Cenóbio] da Caverna. Nosso padre Saba foi visitá-lo e se encheu de alegria ao ver o lugar. Tomando os homens, dinheiro e material adequados, [179, 20] por meio de grande esforço ele lá construiu um pequeno oratório e várias celas em poucos dias; providenciou irmãos para lá viverem, confiando sua direção a Jeremias e lhes deu as regras de sua própria Grande Laura. Desta forma, pela graça de Deus, ele fez do lugar uma laura. Essa laura ainda [179, 25] floresce e herdou o nome do abençoado Jeremias.
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No capítulo75, Saba visita Cesareia e Citópolis para avaliar os estragos feitos durante a revolta samaritana e estipular em quanto seria a remissão e impostos. Nesta última, ele tem um encontro com o próprio Cirilo, ainda menino, e sua família.

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76. A Morte de Saba

Ao completar seu serviço em nome dos cristãos, o grande campeão de piedade, Saba, voltou à [182, 5] Jerusalém e foi alegremente recebido pelo patriarca. Após visitar os lugares santos e como se dissesse adeus a eles, foi para sua Grande Laura, onde caiu doente pouco tempo depois. Ao saber disso, o santíssimo bispo Pedro veio para examiná-lo e, vendo que não [182, 10] tinha nenhum conforto em sua cela exceto algumas alfarrobas e tâmaras velhas, colocou-o numa liteira e o trouxe para o palácio episcopal, onde cuidou dele e o assistiu com suas próprias mãos. Após alguns dias se passarem, nosso padre Saba teve uma visão que revelou que sua morte ocorreria dentro de alguns dias; [182, 15] participando isto ao arcebispo, pediu que lhe fosse permitido voltar para sua própria laura com os cuidados que necessitava. Já repousando em sua torre, o ancião, no começo de [182, 20] dezembro, chamou os padres da laura e lhes consagrou como superior um monge nascido em Berito [Berytus], chamado Melitas, dizendo-lhe para guardar invioladas as tradições legadas em seus mosteiros e lhas entregou por escrito (109). Depois de continuar quatro dias sem ingerir alimento algum ou conversar com alguém, ao fim de sábado, no amanhecer do dia seguinte, pediu [183.] e recebeu a comunhão. Então, após finalmente dizer, ‘Senhor, em tuas mãos entrego meu espírito’. [Sl 31:5 (30:6)], ele cedeu sua alma. [532 d.C.]

Notas:

(109) – A Grande Laura tinha alguma forma de regra escrita. Um documento que se propõe ser essa regra entregue por Saba foi descoberto num manuscrito do século XII, mas que contém tradições que retrocedem até a vida de Saba. Ver S. Vailhé, ‘Les écrivans de Mar Saba‘ e E. Kurtz, ‘Tupos kai paradosis‘.
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Aqui se encerra a existência de S. Saba. Seguem uma descrição dos funerais de Saba, e uma série de aparições e milagres atribuídos ao monge depois de morto. Ao final do capítulo 82, Cirilo declara: “Dos milagres do ancião de Deus que eu selecionei e registrei estes são poucos de muitos. Mas agora o tempo me chama para dar um relato parcial do que aconteceu a seus sucessores e discípulos.” Começa efetivamente a narração dos episódios da segunda crise origenista. Registre-se uma nota quanto à data de falecimento de Saba:

Notas:

(110) – Cirilo, ao oferecer esta detalhada datação, deixou-se ficar confuso e iniciou involuntariamente muito debate. A décima indicção vai de setembro de 531 a agosto de 532, fazendo a data da morte de Saba 5 de dezembro de 531. O nonagésimo quarto ano da vida de Saba e sexto ano do reinado de Justiniano indicam que ele morreu em 532, no qual 5 de dezembro cai no domingo. 532 é a data correta e assim as datas das indicções precisam ser corrigidas se acrescentado um ano. O mesmo erro se repete para das datas subsequentes a 532 e o ajuste necessário foi feito nas margens do texto. Para recapitular este problema complexo, veja E. Stein, ‘Cirille de Scythopolis‘.

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83.O Recrudescimento do Origenismo (114)

Abba Melitas, o sucessor do ancião de Deus, [188.] entregara ao arcebispo Pedro, quer por indiferença ou inexperiência, os mil solidi dados por Sumo para a construção de um forte conforme a ordem imperial, e assim a construção do forte não se realizou. O patriarca, ao receber os mil solidi, distribuiu-os em vários mosteiros. Quando este Abba Melitas assumiu a direção do rebanho do ancião de Deus em florescente condição, lobos já estavam [188, 5] prestes a devastá-lo, caso não tivesse sido ele resgatado pela supervisão do principal pastor, Cristo nosso Deus. Direi brevemente como e de que forma isso ocorreu.

Enquanto nosso todo digno de louvor padre Saba ainda estava na carne, houve uma confissão de fé em todos os mosteiros do deserto e se podia ver todas os [188, 10] filhos de Jerusalém adentrando a casa de Deus em concórdia, preservando na harmonia o inviolável e irrefragável caráter das doutrinas divinas, a fim de cumprir o dito das escrituras, ‘Ergue teu olhos em torno; e vê teus filhos se reunirem’ (cf. . Is 60:4) (115). Mas quando o excelente pastor deixou este mundo, seu rebanho, sendo conduzido por um [188, 15] pastor inexperiente, caiu em dificuldades. Nono e seu partido, tomando vantagem da morte de nosso padre, digo: Saba, tornaram públicas a heresia na profundeza de seus corações e instilaram uma turbulenta sublevação em sua vizinhança. Seduziram para sua própria heresia infame não apenas os monges mais instruídos de Nova Laura, mas também [188, 20] os do mosteiro de Martírio e da laura de Firmino [Firminus], numa época em que seus padres Firmino e Sozomen, os discípulos e companheiros de combate de ancião de Deus, já haviam morrido (116). Além disso, foram bem sucedidos em disseminar a heresia de Orígenes no Grande Laura e os outros mosteiros [188, 25] do deserto. Nessa mesma época, Domiciano [Domitian], superior do mosteiro de Martírio e Teodoro – de sobrenome Ascidas – que comandava o mosteiro de Nova Laura, ambos engajados na saciedade da praga da Orígenes, [189.] zarparam para Constantinopla, onde fingiram batalhar pelo Concílio de Calcedônia (117). Por recomendação do Leôncio de Bizâncio mencionado acima, eles se associaram ao padre Eusébio (118) e por meio dele ao nosso devotíssimo imperador. Dissimulando sua heresia pelo uso abundante de hipocrisia [189, 5] e gozando de imediato acesso ao palácio, Domiciano recebeu a primeira sé da província da Galácia [Galatia] (119), ao passo que Teodoro conseguiu a sé de Cesareia da Capadócia. Nono e seu partido, ganhando mais força a partir disto, foram zelosos e incansáveis em espalhar as sementes do origenismo por toda a Palestina.

Notas:

(114) – Estas páginas finais da vida de Saba são as mais completas fontes para história do conflito do sexto século envolvendo o origenismo. Para uma total história desses eventos ver F. Diekamp. Die origenistische Streitigkeiten des sechsten Jahrhunderts.

(115) – Uma visão nostálgica que faz vista grossa aos conflitos que dividiam os mosteiros durante a vida de Saba.

(116) – O origenismo provia um panorama intelectual que atraía os monges de melhor formação (n.p. 18). Os mosteiros de Firmino e Martírio ficavam a noroeste de Jerusalém, a cerca de quinze milhas de Nova Laura. Assim o origenismo fez uma cabeça de ponte tanto nas extremidades setentrionais bem como nas meridionais do deserto monástico. Para uma descrição completa dos vestígios do mosteiro de Firmino, ver M. Marcoff e D. Chitty, ‘Notes on Monastic Research in the Judean Wilderness 1928-9′.

(117) – Domiciano e Teodoro Ascidas viajaram para Constantinopla para participar do Sínodo Local (536) no qual os monofisistas foram anatematizados.

(118) – Padre Euzébio era sacerdote da Grande Igreja da capital e um administrador. Ele aparece em vários pontos da narrativa.

(119) – A sé de Ancyra.

Notas do portal:

(18) – Uma leitura interessante quanto a isso se encontra em Elizabeth A. Clark, ‘The Origenist Controversy – The cultural construction of an early christian debate‘, Princeton University Press.
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84. Os Origenistas se Reúnem no Nova Laura

[189, 10] Após comandar o rebanho de Abba Saba por cinco anos, Abba Melitas morreu. Já que o abençoado Teódolo [Theodulus], várias vezes acima mencionado, também morrera, seu irmão Gelásio [Gelasius] (120) sucedeu ao posto de Abba Saba como superior no começo da décima quinta indicção [537 d.C]. Quando [189, 15] se tornou superior e viu a praga do origenismo com muitas comunidades em seu poder, Gelásio, compartilhando as opiniões do inspirado bispo e eremita João, e tendo como aliados um tal de Eustátio [Eustathius], um escriba galaciano, Estevão de Jerusalém e Timóteo de Gabala, que [189, 20] atualmente resplandece com virtudes em Cétis [Scetis], lera em voz alta na igreja a obra do santo bispo Antípatro [Antipatrus] de Bostra (121) contra as doutrinas de Orígenes. Enfurecidos por isto, os que haviam abraçado essa heresia destruidora de almas provocaram um distúrbio na igreja. O líder nesta perversão era um tal de João, diácono e [189, 25] precentor da laura, nascido antioqueno, que fora deposto de seu sagrado ofício pelo padres por causa de sua heresia e estava conspirando com João, apelidado de Demônio do Trovão, Ptolomeu e outros; [190.] estes homens promoveram assembléias não autorizadas e tentaram perverter muitas almas. Nisso os padres, por comum consentimento, expulsaram-nos da laura individualmente, seu número chegou a ser cerca de quarenta. Eles partiram para Nova Laura para se unir a Nono e Leôncio de Bizâncio, que nesta altura havia retornado de Constantinopla e [190, 5] estava furioso com os sucessores do abençoado Saba e clamava contra Abba Gelásio e os padres de Grande Laura.

Quando todos os líderes da heresia haviam se reunido em Nova Laura, Leôncio de Bizâncio, que fora por longo tempo hostil ao abençoado Saba, incitou todos a fazer uso da [190, 10] própria força de vontade a ponto de demolir o Grande Laura e torná-lo inabitável. Juntou os que em toda parte aderiram a sua heresia; uma vez reunidos, estes homens acompanharam Leôncio e os monges expulsos do mosteiro do abençoado Teodósio, com a esperança de seduzir o celebrado [190, 15] Sofrônio [Sophronius], superior do mosteiro, e os padres, mas seus planos foram frustrados e se retiraram humilhados. Então, enfurecido com Gelásio e o Grande Laura, Leôncio e seu grupo foram a vários lugares e reuniram picaretas, pás, pés-de-cabra de ferro e outras ferramentas de demolição, junto com uma mão-de-obra composta de [190, 20] camponeses; com estes eles partiram com fúria total para demolir o Grande Laura. Na segunda hora do dia, desceu lá por entre eles névoa e escuridão; após vagarem desnorteados por um dia inteiro por lugares acidentados e intransitáveis, como soubemos de alguns com conhecimento preciso, encontravam-se no dia seguinte em [190, 25] dificuldades no mosteiro do abençoado Marciano [Marcianus] (122). E assim, vendo novamente a luz comum, retornaram para casa humilhados por nada lograr. O milagre foi operado pelo Deus das maravilhas, que se opõe ao orgulhoso e distribui graça ao humilde, e que feriu os oponentes de Ló (Gn 19:11) e Eliseu (2 Rs 6:18) com a cegueira.

Notas:

(120) – Gelásio fora engajado na construção da igreja da Mãe de Deus na Laura, 117, 3.

(121) – O mesmo Antípatro que era admirador de Eutímio, 52, 23.

(122) – Leôncio e seu grupo estavam a uma boa distância fora de sua rota. V. Corbo (Gil Scavi di Kh. Siyar el-Ghanam, 162-3) sugeriu que o sítio do mosteiro de Marciano deveria estar localizado mais a leste, em Khirbet Giodham, que é mais comumente identificado com o mosteiro de Teógnio [Theognius]. É certamente mais provável que o grupo de Leôncio tenha parado aqui – mas os vestígios parecem ser pequenos demais e tremendamente afastados de Belém para serem identificados com o grande cenóbio de Marciano.
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85. Um Edito Imperial contra o Origenismo

[191.] Nessa época, chegaram à Palestina o patriarca de Antioquia – Efrém [Ephraem] – e o padre Eusébio em razão da deposição do bispo Paulo de Alexandria (123). Quando o padre Euzébio veio à Jerusalém após a dissolução [195, 5] do concílio, Leôncio lhe apresentou os expulsos do Grande Laura, que acusaram Gelásio de dividir a comunidade em duas metades e de expulsá-los, ao passo que angariava a simpatia dos opositores deles. Padre Eusébio, enganado pelas palavras de Leôncio e nada sabendo da heresia deles, mandou chamar Abba Gelásio e, [191, 10] numa tentativa de resolver a disputas, pressionou-o a receber de volta os expulsos ou a expulsar seus opositores. Em face a tal pressão, os padres, após deliberação, tiraram da laura Estevão, Timóteo e quatro outros dos irmãos, que suportando seu exílio voluntário, partiram para Antioquia, onde [191, 15] informaram o patriarca Efrém do que ocorrera e lhe mostraram o trabalho do abençoado Antípatro. O patriarca, lendo as blasfêmias de Orígenes no trabalho a ele entregue e, sabendo, a partir dos que lho deram, as ações dos origenistas em Jerusalém, ficou motivado a ato de coragem e, por anátema público [191, 20] de autoridade sinodal, condenou as doutrinas de Orígenes (124).

Quando se soube disso em Jerusalém, para o vexame de Nono e seu grupo, eles, em aliança com Leôncio de Bizâncio, que fora de navio de volta para Constantinopla, Domiciano de Galácia e Teodoro da Capadócia, pressionaram o arcebispo Pedro a remover [191, 25] o nome de Efrém dos dípticos sagrados. Ao provocarem esta grande discórdia, o arcebispo entrou em contato secretamente com Sofrônio e Gelásio e lhes disse para compor uma petição ao imperador contra os origenistas, adjurando-o a não remover o nome do patriarca Efrém dos sagrados [191, 30] dípticos. Quando os padres já haviam composto esta petição e a apresentado, o arcebispo ao recebê-la, despachou-a com uma carta ao imperador lhe contando as inovações dos origenistas. Ao receber esta petição, nosso [192.] devotíssimo imperador emitiu um edito contra as doutrinas de Orígenes, edito ao qual o patriarca Mena de Constantinopla e o sínodo comandado por ele subscreveram suas assinaturas (125). Domiciano e Teodoro também foram forçados a [192, 5] assinar, mas sua hipocrisia se tornou óbvia para todos. Pois, após assinarem, Domiciano, descobrindo que alguns dos heréticos origenistas haviam conseguido evitar assinar, caiu em aflição e angústia e, cortando sua barba, separou-se da comunhão católica, e assim morreu excomungado de edema em Constantinopla; quanto [192, 10] à hipocrisia de Teodoro, testemunhas alegam a feroz perseguição que ele iniciou contra os ortodoxos após ter dado sua assinatura.

Notas:

(123) – Paulo vinha patriarca de Alexandria desde 537. Ele estava envolvido no assassinato de Psoio [Psoius], um diácono, e foi deposto pelo Sínodo de Gaza (542).

(124) – Efrém foi patriarca de Antioquia de 527 a 545. Foi o líder do grupo calcedonense e se opôs tanto a monofisistas e origenistas. Ver John Moschus, Spiritual Meadow 36 para sua oposição aos monofisistas e Liberatus, Breviarium 23 para sua oposição aos origenistas.

(125) – Além da petição da Palestina e o Sínodo Local de bispos sob a presidência do patriarca de Constantinopla, os ortodoxos tinham o apoio do legado papal, Pelágio.
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86. O Ataque ao Grande Laura

O edito contra Orígenes foi publicado em Jerusalém no mês de fevereiro da quinta indicção no décimo primeiro ano [543 d.C.] (n.p. 19) após a morte de nosso padre Saba. Todos [192, 15] os bispos da Palestina e superiores do deserto acrescentaram suas assinaturas a ele, com exceção do bispo Alexandre de Abila. Em indignação, Nono, Pedro, Mena, João, Calisto, Anastácio e outros líderes da heresia deixaram a comunhão católica e, [192, 20] retirando-se do Nova Laura, estabeleceram-se na planície. Quando esta notícia chegou à Constantinopla, onde padre Eusébio e Leôncio já haviam morrido, Teodoro de Capadócia, que controlava o palácio, chamou os legados da santa igreja da Ressurreição (126) e [192, 25] lhes disse com grande raiva, ‘Se o patriarca Pedro não atender os padres e recebê-los de volta na própria laura deles, nesse mesmo instante farei dele um ex-bispo.’ Com isso o grupo de Nono, a conselho do dito Teodoro denominado Ascidas, escreveu ao arcebispo como se segue:

[193.] Imploramos a Sua Piedade que seja de Seu acordo uma modesta garantia ao fazer com toda presteza uma declaração universal para causar esta impressão: ‘Que seja revogado todo o anátema feito em desagrado a Deus, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo’. Estaremos satisfeitos com esta garantia, apesar de sua falta de precisão.

Ao receber essa carta, o arcebispo não concordaria de primeira em providenciar a garantia pedida por serem danosas e ilícitas. Mas temendo as intrigas de Ascidas [193, 10] e desejando fazer uso da ocasião, mandou chamar Nono e seu grupo da planície, reuniu-os em segredo e lhes deu a garantia pedida. Assim tranqüilizados, voltaram para o Nova Laura e lá ficaram, amargos em sua oposição aos padres do Grande Laura.

[193, 15] Então Ascidas forçou o arcebispo Pedro, que fora até Constantinopla, a aceitar como ministros Pedro de Alexandria e João Estrongulo [Strongulus], ao mesmo tempo em que fez João, o eunuco, que dirigia o mosteiro de Martírio, superior da Nova Igreja (127). Isto deu a [193, 20] Nono e seu grupo maior confiança para proclamar publicamente sua iniqüidade e de casa em casa, e para tramar várias perseguições aos padres do Grande Laura (128). Se vissem um monge ortodoxo na cidade santa, juntariam alguns indivíduos do mundo para atacá-lo e insultá-lo como ‘homem de Saba’, e assim empurrá-lo para fora da cidade santa. Quando vários dos [193, 25] padres ortodoxos tinham sido atacados e uma guerra contra os pios começara, os bessi do Jordão (129), incitados pelo zelo divino, vieram até a cidade santa para auxiliar os ortodoxos que estavam sendo hostilizados. Combate aberto foi empreendido contra os bessi e o resto dos ortodoxos [194.] e, quando eles se refugiaram na hospedaria do Grande Laura, seus adversários se atiraram sobre eles repentinamente, desejando em sua total fúria matar os padres. Encontrando a hospedaria em segurança, quebraram as janelas com pedras e impiedosamente apedrejaram os que dentro se encontravam. Enquanto os padres estavam sitiados, um bessano [Bessan] chamado [194, 5] Teódulo [Theodulus], encontrando um mangual e tomando-a em suas mãos, saiu do hospício e sozinho dispersou seus adversários, embora fosse cerca de trezentos. Ele tomou cuidado para não acertar quem quer que fosse; mas sendo o próprio alvejado por eles com uma pedra, caiu e morreu poucos [194, 10] dias depois. Isto encerrou a guerra contra os pios, salvo pela jamba de metal quebrada do bazar, que guarda testemunho contra a selvageria daqueles adversários até o presente dia.

Notas:

(126) – A igreja de Jerusalém tinha representantes residentes na capital.

(127) – A Nova Igreja fora recém concluída e consagrada em 543. O cargo de superior da mais nova das igrejas de Jerusalém era um posto importante.

(128) – Foi neste ponto que Cirilo chegou a Jerusalém, com o aviso estrito de sua mãe para não se envolver com os origenistas.

(129) Os bessi eram de uma tribo da Trácia, da qual muitos membros se estabeleceram em mosteiros palestinos. Os bessi do Jordão poderiam ser a mesma comunidade de Soubiba, próxima ao Jordão, que é mencionada por João Mosco [Moschus] (Spiritual Meadow, 157). Uma das quatro igrejas no Mosteiro de Teodósio foi reservada para eles (Teodoro de Petra, Life of Theodosius, 45, 13-16).

Notas do portal:

(19) – Chegamos em 543 d.C., data do edito do sínodo local contra o origenismo. E cadê Teodora nessa história toda? Ah, sim! Ela tomo um esporro de Saba dez anos antes…. e só!

87. O Aparente Triunfo dos Origenistas

Nessa conjuntura, os padres do Grande Laura imploraram a Abba Gelásio para que fosse a Constantinopla e desse [194, 15] conhecimento de tudo ao nosso piosíssimo imperador. Pouco antes de partir, Abba Gelásio reuniu os padres na igreja de Grande Laura, cumprimentou-os calorosamente e fez a seguinte declaração; ‘Vejam, padres, atendendo a seu pedido estou indo para Constantinopla, não sabendo o que me acontecerá durante a jornada. Eu, portanto, imploro que não entrem em concórdia com nenhum dos [194, 20] partidários de Teodoro de Mopsuéstia, que era um herético, já que nosso santificado padre Saba o execrava junto com Orígenes (130). Eu mesmo lamento profundamente ter acrescentado minha assinatura à petição feita pelo deserto às ordens do patriarca contra sua existência anatematizada. Deus, [194, 25] porém, por cuidar de sua igreja, assim determinou que a petição fosse rejeitada e desejou que Teodoro seja anatematizado por conta própria.’ Após seu discurso aos padres, Gelásio pediu licença e partiu. Quando chegou a Bizâncio, Ascidas foi avisado de sua chegada e foi dito para os membros [195.] do orfanato, da residência patriarcal e do palácio não receberem o monge de Jerusalém. Assim, Abba Gelásio, incapaz de conseguir entrar em qualquer lugar e temendo as intrigas de Ascidas, abandonou Bizâncio em direção à Palestina, fazendo a jornada a pé. [195, 5] Morreu ao chegar a Amório [Amorium], no mês de outubro da nona indicção [546 d.C.]. Quando os padres do Grande Laura souberam disso, foram em comum acordo para a cidade santa pedir por um superior; mas quando disseram isso para o patriarca, foram expulsos do palácio episcopal com violência e socos por ordens dos ministros. Após sofrerem várias provações como [195, 10] resultado, voltaram à laura sem sucesso.

Nessa época, todos haviam passado para o lado dos origenistas, seja cedendo à necessidade ou seduzidos pela bajulação ou induzidos ao erro pela ignorância ou com medo do poder exercido pela iniqüidade. E assim os hereges, com o controle de tudo, concentraram suas forças contra o isolado Grande Laura [195, 5] e suportaram grandes dores para ganhar o controle dele. Por meio de vasta intriga conseguiram que um origenista chamado Jorge fosse indicado para superior, levando-o à laura sob a proteção de uma guarda armada, sentaram-no sobre o trono de nosso santificado padre Saba no mês de fevereiro da [547 d.C.] nona indicção. Com a ida do lobo para lá, segui-se [195, 20] uma grande perseguição que dispersou nossos santos padres. Nosso inspirado padre João, bispo e eremita, deixou seu local reclusão após muitos anos e se retirou para o Monte das Oliveiras; com ele partiram todas as crias da piedade, [195, 25] das quais muitas se dispersaram pelo interior. Mas Deus realizou grande prodígio como anteriormente no caso de Ário (n.p. 20). No mesmo dia da perseguição na qual eles foram expulsos do Grande Laura, o [196.] chefe do inimigo e general da iniqüidade, Nono, foi arrebatado dentre os homens e tomado por morte súbita.

Notas:

(130) – Defensores de Calcedônia estavam sujeitos a serem rotulados como nestorianos pelos monofisistas. Já que em Constantinopla o grupo estava então batalhando contra Teodoro de Mopsuéstia e o patriarca Pedro cometera o erro de se dissociar deles, Gelásio estava preocupado em deixar clara sua rejeição a Teodoro.

Notas do portal:

(20) – Após ter sido exilado por Constantino, o chefe da mais forte dissidência do século IV – Ário – foi reabilitado e chamado à Constantinopla. Morreu subitamente quando se dirigia para a catedral em 330 d.C.
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88. Cassiano Superior do Grande Laura

O mais opressor dos lobos, Jorge, após comandar o santo rebanho do pio Saba por sete meses, foi expulso por seus próprios defensores sob as acusações de conduta dissoluta e desonesta. De bom grado eu passarei em silêncio por essas acusações, a fim de não publicar em meus relatos coisas que merecem silêncio e esquecimento profundos. Nisso, os padres restantes no Grande Laura, a conselho do patriarca, tomaram como superior Abba Cassiano de Citópolis, que naquela época estava governando a comunidade de Souka com habilidade e ortodoxia. Ele foi um homem que fizera a renúncia em tenra idade e fora formado pelo pio Saba; tinha se tornado sacerdote do Grande Laura, governado a laura de Souka por oito anos e fundado um mosteiro em Citópolis chamado Zougga. Após pastorear o santo rebanho do pio ancião por dez meses, Abba Cassiano adormeceu e descansou em paz (cf. Sl 4:8-9) a doze de julho da décima indicção, no décimo sexto ano da morte do grande Saba [548 d.C.] (n.p. 21).

Notas do portal:

(21) – Em 28 de junho de 548, morreu Teodora. Sua participação nos eventos da segunda crise origenismo foi nula.
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89. O Cisma entre os Origenistas

Os padres do Grande Laura estavam agora inspirados por [196, 20] Deus para fazer Abba Conon o superior, um homem celebrado por seus feitos monásticos e doutrinas ortodoxas. Lício de nascimento, praticara a vida monástica desde a infância em sua terra natal e se notabilizara em muitos combates pios; indo venerar os lugares santos após [196, 25] a morte do abençoado Saba e foi guiado por Deus para entrar no Grande Laura, ele instruía todos os padres pela pureza de vida, simplicidade de caráter, gentileza de conduta e uma combinação de entendimento espiritual e discernimento. Assumindo o rebanho do abençoado Saba [197.] esvaziado e reduzido, Abba Conon o fez crescer, tornou-o eminente e trouxe de volta de todas as partes os padres que estavam espalhados pelo interior.

Nessa conjuntura, Deus, que sempre exerce a [197, 5] providência no interesse de sua Igreja, dissolveu a concórdia dos origenistas, tal como há muito tempo atrás, na época de Héber, separou as línguas e rompeu a aliança contra Deus (Gn 10:25, 11:9). Pois quando Nono estava fora do caminho, os membros da laura de Firmino entraram em briga com os do Nova Laura quanto as suas próprias doutrinas e estavam completamente engajados em lutar uns contra os outros. [197, 10] A facciosa iniqüidade de ambos foi registrada na época atual em um relato mais pormenorizado e abrangente feito por alguns homens, caros a Deus, de nosso rebanho, recebendo a refutação que merece (131). Qualquer um que deseje pode facilmente descobrir a iniqüidade deles a partir dos mesmos nomes que [197, 15] davam uns aos outros, os do Nova Laura chamando os da laura de Firmino de ‘protoktistas‘ ou ‘tetraditas‘ e os da laura de Firmino chamando os do Nova Laura de ‘isocristas‘; pois cada um foi designado com um nome tomado a partir das doutrinas específicas de suas iniquidades (132). Teodoro de Capadócia, que controlava os assuntos estatais e [197, 20] apoiava e pertencia ao partido dos socristas, teve muitos deles ordenados bispos da Palestina e fez o superior do Nova Laura, Teodoro, ser indicado guardião da Cruz e metropolitano de Citópolis. Isso trouxe tempestades e ondas contra [197, 25] não apenas nosso rebanho, mas também aos adeptos da iniquíssima doutrina dos protoktistas, cujo [198.] superior era Isidoro [Isodore]. Este Isidoro, incapaz de se contrapor a Ascidas e aos monges do Nova Laura, foi até ao pastor de nosso rebanho, Abba Conon, e, dando-lhe sua palavra pela santa Sião que não professava a doutrina da pré-existência e, pelo contrário, que se oporia à iniqüidade com toda [198, 5] sua força, partiu com ele para Constantinopla no começo da décima quinta indicção [551/2 d.C.].

Notas:

(131) – Este trabalho não sobreviveu.

(132) – Em um importante estudo, A. Guillaumont demonstrou que o pensamento origenista se desenvolveu entre o edito de Justiniano de 543 contra o origenismo e o Concílio de Constantinopla de 553. Os anátemas emitidos nessas ocasiões mostram as opiniões dogmáticas sob ataque. As de 543 se referem a lugares-comuns do pensamento origenista, extraídos de De Principiis. A ênfase na pré-existência da alma fez do título ‘protoktistas‘ ou ‘os criados primeiro’ uma designação natural pra um grupo que professasse essas opiniões. Os anátemas de 553 (que têm muito em comum com os comentários de Ciríaco [Cyriacus] em 230, 2-17) atacam proposições que parecem ter sido extraídas da Kephalaia Gnostica de Evágrio. Estas incluem a idéia de que os justos reinarão com Cristo na Ressurreição, e assim para este grupo o título ‘isocristas‘ ou ‘iguais com Cristo’ poderia ser aplicável. O título ‘tetraditas‘ poderia implicar que o reino dos justos com Cristo introduziria um quarto elemento na Trindade. Guillaumont sugere que após 543 um novo grupo militante emergiu dentro do origenismo que era influenciado pelo pensamento de Evágrio [Pôntico]. A ruptura entre os origenistas mais conservadores e os mais radicais levou à desintegração e queda do movimento. Ver A. Guillaumont, Les ‘Kephalaia Gnostica’ d’Evagre le Pontique et l’histoire de l’Origenisme chez les grecs et chez les syriens, 136-159.
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90. O Concílio de Constantinopla e a Vitória da Ortodoxia

Ao chegar à Constantinopla, o grupo de Abba Conon foi submetido por Ascidas a uma variedade de provações, mas por meio da resistência saiu vitorioso. Visto que na ocasião, em [198, 10] pouco tempo depois, da morte do arcebispo Pedro, Macário foi ordenado bispo pela obstinação dos monges do Nova Laura e resultou em guerra na cidade santa, o piosíssimo imperador, ferozmente enfurecido contra Ascidas e os origenistas, deu ordens para Macário ser expulso do episcopado (133). O grupo de Abba Conon, [198, 15] agarrando a oportunidade do momento, informou ao imperador de sua situação e lhe apresentou uma petição revelando toda a iniqüidade dos origenistas, tendo morrido Isidoro. Então, fazendo uso de total franqueza (134), propuseram Eustóquio [Eustochius], administrador de Alexandria, que se encontrava em Constantinopla, a bispo de Jerusalém. Nosso [198, 20] piosíssimo imperador decretou que Eustóquio deveria se tornar patriarca e deu ordens para que houvesse um concílio ecumênico. Abba Conon, ao mandar Eustóquio em sua viagem para Jerusalém, pediu-lhe que mandasse Eulógio [Eulogius], superior do mosteiro do abençoado Teodósio, a fim de que também estivesse presente no [198, 25] concílio que estava sendo organizado. Eustóquio, assumindo seu patriarcado, enviou três bispos e também Abba Eulógio com dois outros superiores, Ciríaco da laura chamada “A Fonte” e certo Pancrácio [Pancratius], um estilita (135).

[199.] Quando o quinto concílio ecumênico fora feito em Constantinopla, um anátema comum e universal foi dirigido com Orígenes e Teodoro de [199, 5] Mopsuéstia e contra os ensinamentos de Evágrio e Dídimo quanto à pré-existência e restauração universal, na presença e com a aprovação dos quatro patriarcas (136). Quando nosso divinamente protegido imperador mandou para Jerusalém as atas do concílio, todos os bispos da Palestina as confirmaram oralmente e por escrito, excetuando Alexandre de Abila, que foi, portanto, [199, 10] expulso do episcopado e finalmente sepultado por um terremoto em Bizâncio. Os monges do Nova Laura, porém, separam-se da comunhão católica. O patriarca Eustóquio tratou-os com respeito e por oito meses fez uso de conselhos e exortações para com eles; mas ao falhar em persuadi-los [199, 15] a ficar em comunhão com a Igreja Católica, aplicou as ordens imperiais e conseguiu que o dux Anastácio os expulsasse de Nova Laura e livrasse toda a província de sua destrutiva influência. Não desejando deixar o lugar desabitado, escolheu cento e vinte monges e os transferiu para lá, sessenta vindos do Grande Laura, dos quais ele [199, 20] designou um antigo scholarius chamado João para ser superior (137), e mais sessenta de outros mosteiros ortodoxos do deserto; eu sou um desses, convocado do mosteiro de Santo Eutímio pelos padres do Grande Laura, a conselho e com a permissão do inspirado João, bispo e eremita. [199, 25] Assim reunidos na cidade santa, partimos com o patriarca e o novo superior para o vilarejo de Theoka e, quando os origenistas fora expulsos pelo dux [200.] Anastácio, assumimos o Nova Laura em 21 de fevereiro da segunda indicção [554/5 d.C.], no décimo terceiro ano da morte do abençoado Saba (138). Dessa forma a guerra contra a piedade chegou a um fim.

[200, 5] Eu mesmo, no instante de encerrar meu relato do pio ancião, apropriadamente proferirei o dito profético, ‘Que o deserto se alegre e floresça como o narciso’ (Is 30:5), pois Deus tivera clemência de seus filhos, dizendo o próprio, ‘Observando, vi a aflição de meu povo em Jerusalém e ouvi seus gemidos, e [200, 10] desejei libertá-los (cf. Ex 3:7-8). Tendo desejado, ele nos visitou, tendo nos visitado, resgatou e nos libertou do poder dos origenistas. Levou-os de nossa presença e nos permitiu habitar suas moradas. O fruto do trabalho deles foi distribuído a nós, a fim de que pudéssemos observar seus mandamentos e [200, 15] estudar sua lei. Para ele, a glória eterna.

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AQUI TERMINA A VIDA DE NOSSO SANTO PADRE SABA

Notas:

(133) – Posteriormente, Macário renunciou às suas simpatias origenistas e foi restaurado ao patriarcado de Jerusalém em 563, onde permaneceu até sua morte em 583 (Evágrio [Escolástico], História Eclesiástica 4.39 e 5.16).

(134) – ‘Franqueza’ está traduzindo parresia, aqui usada no contexto secular de um requerente abordando um governante de forma audaciosa.

(135) – Pancrácio é o único estilita mencionado por Cirilo. Este Ciríaco não é aquele cuja vida foi escrita por Cirilo.

(136) – O principal propósito do Concílio era a condenação de três escritores acusados de nestorianismo: Teodoro de Mopsuéstia, Teodoreto e Ibas de Edessa. Os ensinos de Orígenes, Evágrio e Dídimo também foram condenados.

(137) – Este João, o Escolário, não é o mesmo superior do mosteiro da Torre (128, 17). Ver nota 52 para o significado de scholarius.

(138) – Assumindo que as datas de indicção estão um ano adiantadas, então Cirilo chegou ao Nova Laura em 555 (ver nota 110 acima). Mas, nesta ocasião, a datação de Cirilo podia estar certa, pois se Eustóquio permitiu um intervalo de oito meses após o Concílio de Constantinopla antes de agir contra os origenistas do Nova Laura, então nesse ponto seria fevereiro de 554 como a data correta. Mas veja Stein, ‘Cyrille de Scythopolis‘ 174-6.

Para saber mais:

Scytholopolis, Cyril of; The Lives of the Monks of Palestine, tradução inglessa de Price, R.M; Cistercian Publications, 1991.

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Orígenes

8 de novembro de 2011 1 comentário

A Igreja Católica aceitava a reencarnação até o ano 553 da nossa era (…) Orígenes afirmava ser a doutrina do Carma e do renascimento uma doutrina cristã.

– Severino Celestino da Silva, Analisando as traduções bíblicas, cap. IX

Com estas palavras, Severino Celestino da Silva abre o tópico Os Cristãos daquele capítulo. Note que é a “Igreja Católica” a que ele se refere, não se está fazendo nenhuma menção grupos gnósticos, seitas sincréticas, heresias, etc. Bem, se a “ortodoxia” que daria origem ao catolicismo moderno já defendera a reencarnação até aquela data, nada mais natural que encontrássemos referências simpáticas a ela nos escritos de seus primeiros teólogos. Mas será?

O teólogo cristão do século III Orígenes, mencionado acima, não desconhecia tal doutrina, nem a metempsicose professadas por seitas orientais, mas não as aprovava. Dou aqui algumas pinceladas em obras de Orígenes que rejeitam a transmigração das almas em moldes pitagóricos e até modernos. Orígenes terá um tratamento à parte posteriormente, pois poucos Padres da Igreja têm sido tão mal citados como ele.

[As escrituras dizem] Eles então lhe perguntaram: “Quem és, então? Elias?” e ele disse: “Não sou” (Jo, 1:21). Não se pode deixar de lembrar a conexão disso com o que Jesus disse a respeito de Elias: “Se quiserdes dar crédito, ele é o Elias que deve vir“. (Mt 11:14). Como então João replica aos que lhe perguntaram: “És tu Elias?“Não sou“. (… ) Pode-se dizer que João não sabia que era Elias. Esta será a explicação para aqueles que encontraram nessa passagem sustentação para sua doutrina de transmigração, como se a alma fosse revestida em novo corpo e também não lembrasse das vidas anteriores (…) Entretanto, um membro da Igreja, que rejeita a doutrina da transmigração como falsa e não admite que a alma de João fosse a de Elias, pode se referir às palavras do anjo supracitadas e assinalar que não é a alma de Elias que é dita ao nascimento de João, mas o espírito e poder de Elias.

Comentário sobre o Evangelho de João, livro VI, cap VII

Quanto aos espíritos dos profetas, esses são dados por Deus e são considerados como, de certo modo, propriedades deles, como “Os espíritos dos profetas estão submissos aos profetas” (I Cor 14:32) e o “Espírito de Elias repousou sobre Eliseu” (2 Reis 2:15). Assim, diz-se, não há nada de absurdo supor que João, “no espírito e poder de Elias“, converteu o coração dos pais para os filhos (Lc 1:17) e foi por causa desse espírito que foi chamado de “o Elias que deve vir“.

Idem.

Se a doutrina [da transmigração] fosse largamente corrente, não deveria João ter hesitado em se pronunciar sobre isto, com receio de sua alma ter realmente estado em Elias? E aqui nosso fiel apelará para a história e dirá a seus antagonistas para perguntarem aos mestres na doutrinas secretas dos hebreus se eles na verdade sustentam tal crença. Como parece que eles não sustentam, então o argumento baseado nesta suposição se mostra muito desprovido de fundamento.

Idem.

Alguém pode dizer, porém, que Herodes e parte da população mantinham o falso dogma da transmigração de almas para os corpos, com a consequência de que eles pensassem que o antigo João apareceu outra vez devido a um novo nascimento e tinha vindo da morte para a vida como Jesus. Mas o tempo entre o nascimento de João e o de Jesus, que não foi mais que seis meses, não permite se dar crédito a esta falsa opinião. E talvez fosse melhor que outra ideia estivesse na mente de Herodes – os poderes que operaram com João tivessem passado para Jesus – fazendo que ele fosse visto pelo povo como João Batista. E pode-se usar a seguinte linha de raciocínio: apenas por causa do espírito e poder de Elias, não pela alma dele, que se diz de João: “Este é o Elias que deve vir“.

Comentário sobre Mateus, livro X, cap XX

Nesse ponto [a dentificação de João Batista com Elias em Mt 17:10-13], não me parece que se falava da alma de Elias, para que eu não caia na doutrina da transmigração, que é estranha à Igreja de Deus, não sendo ensinada pelos apóstolos, nem encontrada nas escrituras.

Comentário sobre Mateus Livro XIII, cap I

Mas se necessariamente os gregos, que introduziram a doutrina da transmigração, ajustando as coisas em harmonia com ela, não reconhecem que o mundo está se corrompendo; é adequado, que quando eles encararem diretamente a escritura, que declara de modo franco que o mundo perecerá, devem ou desacreditá-las ou inventar uma série de argumentos a respeito da interpretação das coisas referentes à consumação; que mesmo que desejem, não serão capazes de fazer.

Idem

Celso, portanto, não viu de modo algum a intenção de nossas Escrituras. Se tivesse compreendido o destino da alma na vida eterna futura, e o que sua essência e origem implicam, não teria criticado dessa forma a vida do ser imortal num corpo moral, explicada não segundo a teoria platônica da metensomatose, mas numa perspectiva mais elevada. Teria visto, ao contrário, uma descida extraordinária devido a um excesso de amor aos homens, visando reconduzir, conforme a expressão misteriosa da divina Escritura, “as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15:24), que desceram das montanhas, e para as quais o pastor de certas parábolas “desceu”, deixando nas montanhas as que não se tinham perdido (Mt 18:12-13, Lc 15:4s).

Contra Celsus, IV, 17

Entretanto, não admitimos, de modo algum, a metensomatose da alma nem sua queda em animais irracionais, e se por vezes nos abstemos de carne de animais, evidentemente não é pelo mesmo motivo de Pitágoras que nos privaremos dela. Pois sabemos honrar somente a alma racional e confiar com honra seu órgãos a uma sepultura honrada conforme os costumes estabelecidos.

Contra Celsus, VIII, 30

O assunto encerra uma profunda doutrina mística à qual se aplicam as palavras: “É bom manter o oculto o segredo do rei” (Tb 12, 7). Não devemos expor aos ouvidos profanos a doutrina sobre a entrada das almas no corpo que não se dá por metensomatose; não devemos dar aos cães as coisas sagradas, nem lançar as pérolas aos porcos (cf. Mt 7,6).

Contra Celsus, V, 29 – Note que ele rejeita a mudança da alma de um corpo para outro (metensomatose), mas sugere admitir sua pré-existência (entrada no corpo).

O desconhecimento das citadas obras de Orígenes tem levado a uma série de equívocos facilmente evitáveis por parte de apologistas espiritualistas. Léon Denis expõe nas notas num. 4 de seu “Cristianismo e Espiritismo” apenas a parte que lhe interessava de Orígenes, ele poderia ter dado o exemplo e não ter escondido fatos: Cita um resumo do abade Bérault-Bereastel sobre Orígenes que, de cara, erra ao afirmar que “as almas foram criadas simples, livres, ingênuas e inocentes por sua própria ignorância”, de estilo semelhante ao proposto pelos espíritas, em vez de racionais. Também não inclui as explanações do livro III de De Principiis, que privilegiam a pré-existência das almas em vez de reencarnação, nem faz menção a obras posteriores do teólogo alexandrino (Comentários sobre Mateus, João, Contra Celsus) que rejeitam a interpretação que ele quer. Já no século XX, certo autor fez uma curiosa citação:

Ele [Orígenes] chegou a tecer judiciosas ponderações sobre certos trechos da Escritura (…) que não teriam sentido sem admitir a preexistência da alma: “Se o nosso destino atual não era determinado pelas obras de nossas existências passadas, o que dizer de um Deus justo permitindo que o primogênito servisse ao mais jovem e fosse odiado, antes de haver cometido atos que merecessem a servidão e o ódio? Só as nossas vidas anteriores podem explicar a luta de Jacó e Esaú antes do seu nascimento, a eleição de Jeremias quando ainda estava no seio da mãe … e tantos outros fatos que atirarão o descrédito sobre a Justiça Divina, se não forem justificados ou praticados pelos atos bons ou maus cometidos em existências passadas” (Contra Celso, I, III, cit. por Mário C. Mello, em Como os Teólogos Refutam, pg. 153).

Andrade, Jayme; O Espiritismo e as Igreja Reformadas, editora EME, 4ª ed., cap. VII, parte 3

Tal citação não existe em Contra Celso, livro I, cap. III. Uma menção à superioridade de Jacó em relação a Esaú ainda no útero é encontrada em De Pricipiis, livro II, cap. IX. O texto real de Contra Celsus é:

Depois disto, Celsus prosseguindo a falar dos cristãos ensinando e praticando suas doutrinas favoritas em segredo e dizendo que eles fazem isto para, com alguma intenção, ver se escapam de uma pena de morte que é iminente; ele compara seus perigos com aqueles encontrados por homens tais como Sócrates pelo amor à filosofia; e aqui ele poderia ter citado Pitágoras também e outros filósofos. Mas nossa resposta com relação a isto é que, no caso de Sócrates, os atenienses se arrependeram imediatamente depois e nenhum sentimento de amargor permaneceu em suas mentes com relação a ele, bem como ocorreu na história de Pitágoras. Os seguidores do último, de fato, estabeleceram por um tempo considerável suas escolas numa parte da Itália chamada Magna Grécia; mas no caso dos cristãos, o Senado Romano, e o príncipe do momento, e a soldadesca, e o povo, e os parentes dos que se tornaram conversos à fé fazem guerra contra sua doutrina e teriam impedido seu (progresso), sobrepujando-a com uma aliança de natureza tão poderosa que, não fosse pela ajuda de Deus, não teria escapado do perigo e se erguido acima dele, a fim de (finalmente) derrotar o mundo em sua conspiração contra ela.

Orígenes, Contra Celsus, I,III

É um capítulo curto e não há nenhuma referência a Esaú e Jacó nele. A questão destes filhos de Rebeca é recorrente nas discussões entre ortodoxos e reencarnacionistas, porém a chave dela pode estar além de qualquer teologia. Numa visão laica, a diferença de tratamento entre estes dois gêmeos pode ser, na verdade, parte do mito nacional da criação de Israel e seus vizinhos, contidos na Gênese:

Deus diz a Rebeca, então grávida: “Duas nações estão em teu útero, e dos dois povos, nascidos de ti, serão divididos; um será mais forte que o outro, o mais velho deverá servir ao mais moço.” (Gen 25:23). Como os eventos se desenrolaram, aprendemos que Esaú é o mais velho e Jacó, o mais moço. Portanto a descrição dos dois irmãos fundadores de Edom e Israel, serve como legitimação para uma relação política entre duas nações nos tempos posteriores da monarquia. Jacó-Israel é sensível e educado, enquanto Esaú-Edom é bem primitivo, um caçador e um homem ao ar livre. Mas Edom não existe como entidade política até um período relativamente tardio.(…) A evidência arqueológica também é clara: a primeira onda de assentamento em larga escala em Edom, acompanhada pelo estabelecimento de grandes povoações e fortalezas, pode ter começado no final do século VIII a.C., mas alcançou o ápice apenas no século VII e no início do século VI a.C. Antes, portanto, a área era pouco povoada. (…) Assim, aqui também as histórias de Jacó e Esaú – filho delicado e poderoso caçador – são habilmente construídas como lendas arcaizantes, para refletir as rivalidades dos tempos monárquicos posteriores.

Finkelstein, Israel & Silberman, Neil Aser; A Bíblia não tinha razão, Ed. A Girafa, cap. I

Este “erro de citação” é até uma falha “menor”, digamos assim. Porém demonstra claramente que nem Andrade, nem sua fonte (Mello) se deram ao trabalho de ler Orígenes diretamente.

Agora, só para constar:

Orígenes é conhecido como um dos maiores sábios cristãos de todos os tempos. Foi praticamente o criador de nossa teologia cristã. E, como apenas 17 anos, foi reitor da Universidade de Alexandria, em substituição a São Clemente de Alexandria. E diga-se, de passagem, que Alexandria foi o maior centro intelectual do mundo, na época de Orígenes, século 3º.

José Reis Chaves, A Reencarnação na Bíblia e na Ciência, cap. VI, 7ª ed., p. 203.

Se formos conferir o que nos diz o principal biógrafo de Orígenes, leremos algo um tanto diferente:

Orígenes ia completar dezoito anos quando foi posto à frete da escola catequética, momento em que, sob a perseguição do governador de Alexandria Aquila, realizava grandes progressos. Foi então também que seu nome se fez famoso entre todos a quem movia a fé, pela acolhida e solicitude que mostrava para com todos os santos mártires conhecidos e desconhecidos. [grifo meu]

Eusébio de Cesareia, A História Eclesiástica, VI, cap. 3, item 3

Não é demérito nenhum um garoto ser posto no comando de um cargo importante na comunidade cristã de então – a escola catequética. Indica que era reconhecido como um mestre pelos seus. Mas convenhamos que é uma posição bem mais modesta do que ser o reitor da pagã Universidade de Alexandria, que cobria uma gama bem maior de interesses e gente.

Reencarnação X Ressurreição

18 de outubro de 2011 27 comentários

Ressurreição da Carne

Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. (I Cor 15:52)”

Luca Signorelli: A Ressurreição da Carne

    Índice

    Se a reencarnação realmente estivesse contida na Bíblia, tão importante ponto referente ao destino deveria estar escrito de maneira bem explícita. Autores espíritas, possivelmente querendo tornar sua doutrina mais palatável com a ortodoxia cristã, começaram um esforço violento para extrair supostos versículos que confirmassem a presença deste antigo ensino. O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE), já alega arbitrariamente que a ressurreição é a reencarnação entendida pelos judeus do séc. I. Como eles não criam em novo nascimento, acreditavam que no retorno ao mesmo corpo. Segundo Kardec o certo seria crer em reencarnação, visto ser impossível reagrupar nossos átomos após o corpo se decompor. Isto é muito questionável, pois não interessa se algo é possível ou não, mas se teve algum significado para o povo do século I. Pelo menos, o próprio “mestre lionês” teve a prudência de reconhecer que o credo corrente na época pregava a ressurreição. Vejamos, então, o que realmente os judeus do século I entendiam como ressurreição e verificar se corrobora o preconizado por Kardec.

    1 – Antigas Visões Judaicas do Pós-Morte

    Túmulos judaicos

    Ao longo dos livros do Antigo Testamento, pode-se notar uma evolução uma progressiva evolução de pensamento sobre o que acontece após a morte:

    1. Aniquilação;
    2. Existência desencorpada;
    3. Não morrer.
    4. Restauração corporal.

    1.1 Aniquilação

    A primeira a ser encontrada na Bíblia e se resume a sentença de Iahweh sobre Adão (Gn 3:19): “Com o suor de teu rosto comerá teu pão até que retornes ao solo. Pois tu és pó e ao pó retornarás“. Dessa forma, a morte é o fim inexorável de nossa existência, a ser retardado o mais possível. As bênçãos que uma pessoa poderia esperar seriam uma vida longa, feliz, ter muitos filhos e ser enterrado junto aos ancestrais. A “imortalidade” existiria através da descendência e daí um grande temor de que punições recaíssem sobre ela (1). No mundo pagão, essa (des)crença se expressava em inscrições lapidares como RIP – Resquiat in Pace (Descanse em paz) ou NFFNSNC – Non fui, fui, non sum, non curo (Não existia, existi, não existo, não me importo). Como paralelo moderno, esse seria o destino imediato de todo ser humano, segundo as Testemunhas de Jeová, e o destino final da maior da humanidade não salva.

    1.2 Existência de desencorpada

    As almas não seriam imateriais, mas formadas de alguma substância sutil que sobreviveria, de certa maneira, em um lugar chamado Xeol (pronuncia-se Sheol). Ao menos nos livros que lhe fazem menção, o Xeol estava longe de ser um prolongamento desta vida, mas a contemplação de um eterno vazio, não muito diferente do Hades dos pagãos:

    Lembra-te que minha vida é um sopro, e que meus olhos não voltarão a ver a felicidade. Os olhos de quem me via não mais me verão, teus olhos pousarão sobre mim e não mais existirei. Como a nuvem se dissipa e desaparece, assim que desce ao Xeol não subirá jamais.

    Jó: 7-10

    Volta-te, Iahweh! Liberta-me! Salva-me por teu amor! Pois na morte ninguém se lembra de ti, quem te louvaria no Xeol?

    Salmos 6:5-6

    Ainda há esperança para quem está ligado a todos os vivos, e um cão vivo vale mais que um leão morto. Os vivos sabem ao menos que irão morrer; os mortos, porém, não sabem, e nem terão recompensa, por que sua memória cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúme já pereceram, e eles nunca mais participarão de tudo que se faz debaixo do Sol.

    Eclesiastes 9:4-6

    Com efeito, não é o Xeol que te louva, nem a morte que te glorifica, pois já não esperam em tua felicidade aqueles que descem à cova. Os vivos, só os vivos é que te louvam, como estou fazendo hoje.

    Isaías 38:18-19

    Não te prives da felicidade presente, não deixes escapar nada de um legítimo desejo. Não deixarás a outro os teus recursos, e o fruto de teu trabalho à decisão da sorte? Dá e recebe, faze divagar a tua alma, pois não há no Xeol quem procure algum prazer. Como uma roupa, toda carne vai envelhecendo, porque a morte é lei eterna. Como as folhas numa árvore frondosa tanto caem como brotam, assim a geração de carne e sangue: esta morre, aquela nasce.

    Eclesiástico 14:14-20

    As expectativas de longo prazo dos vivos não seriam muito diferentes do caso anterior.
    Um paralelo moderno aparece no terceiro volume da série Fronteiras do Universo (no original, His Dark Materials), do escritor Philip Pullman, em que o “Mundo dos Mortos” é apresentado como um lugar sombrio, acinzentado, onde as almas são impostas a uma espécie de tédio sem fim, ao ponto de acabarem esquecendo, com os séculos, seus próprios nomes.

    1.3 Não Morrer – Vivendo no Céu

    Três grandes figuras da mitologia judaicas se constituem exceção à regra:

    • Enoque: Brevemente citado em Gn 5:18-24 como um justo ancestral de Noé, que “andou com Deus”, viveu 365 anos e então desapareceu, “pois Deus o arrebatou”. Aparentemente, livro Gêneses foi extremamente sucinto ao falar de uma personagem que teve vida bem mais ampla no imaginário judaico e se tornou título de três livros:

      • I Enoque: Na verdade, uma compilação de cinco livros redigidos entre III e I a.C., que tratam desde a queda de um grupo de anjos conhecido como Vigilantes até a consumação dos tempos, além das jornadas de Enoque ao Xeol e aos céus.
      • II Enoque ou Livro dos Segredos de Enoque: Apesar do nome, não é continuação do anterior, tendo sido redigido no I século de nossa era e narra a viagem de Enoque aos dez céus, ao Xeol e as coisas que aprendeu sobre a origem do mundo, a queda dos anjos e destino dos justos e iníquos. Enoque volta à Terra, fala aos seus sobre o que viu, de como deveriam se portar para agradar a Deus e redige 366 livros. É arrebatado de novo e definitivamente por Deus. Alguns manuscritos possuem um adendo sobre a origem de outro imortal: Melquisedeque.
      • III Enoque: Também sem relação com seus antecessores e datado no século V de nossa era. Nele o arcanjo Metatron é apresentado como tendo sido originariamente Enoque.
    • Melquisedeque: Figura enigmática da mitologia judaica, Melquisedeque (“Meu rei é justiça”) é apresentado e Gn 14:17-20, como o rei-sacerdote da cidade de Salém, a quem o patriarca Abraão deu um décimo de um butim de guerra. E só. Fora da Bíblia, porém, Melquisedeque parece ter tido várias faces. Um dos seus reaparecimentos foi nos Manuscritos do Mar Morto, mais especificamente em 11QMelch (ou 11Q13), onde ele é retratado como um grande juiz escatológico celestial, sugerindo uma metamorfose parecida com a que viria ter Enoque/Metatron. Um dos mais elucidativos retratos de seus foi registrado em algumas versões de II Enoque. Nele, informa-se que Melquisedeque teve um nascimento de circunstâncias miraculosas e já veio ao mundo grande o bastante para ficar em pé e pregar. Essa criança foi arrebatada antes do dilúvio e, após as águas baixarem, um novo Melquisedeque apareceu, sem grandes explicações. A partir dele, viria uma sequência de sacerdotes com esse título e último deles seria um juiz escatológico. Talvez a menção ao “sacerdócio eterno de Melquisedeque” na Epístola aos Hebreus não seja mera coincidência.
    • Elias: Profeta que teria sido arrebatado por uma carruagem de fogo (II Reis 2:11). Segundo Malaquias (Ml 3,1) e (Ml 3,22-24 ou 4,4-6), retornará como precursor do Messias.

    Um problema surge ao se tratar com os “arrebatados”: o corpo humano está sujeito ao desgaste e à deterioração. Como, então, poderiam eles permanecer indefinidamente no Céu? Uma conjectura já foi dada acima, pela transformação de Enoque e Melquisedeque (o de Qumran) em seres celestiais. Há também o caso do pseudepígrafo judaico-cristão “Ascensão de Isaías” (séc. I ou II), em que é relatada uma jornada desse profeta pelas várias regiões celestiais. Essa viagem não se enquadra bem como um caso de “arrebatamento” porque se tratou de uma visão: Isaías não esteve lá em corpo físico. Mesmo nessa “visão”, ele precisou colocar uma veste a partir do sétimo Céu para poder prosseguir e ela o deixou similar aos anjos. Já no sétimo Céu, ele encontrou … Enoque, que trajava o mesmo tipo de veste! Não é impossível que seu autor tenha se inspirado em um trecho de I Enoque (62:10), onde se lê de forma poética:

    Serão [os justos] recobertos com as vestes da glória, que são as vestes da Vida do Senhor dos Espíritos. Vossas vestes não envelhecerão e vossa glória não passará na presença do Senhor dos Espíritos.

    Seja por uma mudança em sua natureza intrínseca ou por um influxo externo de poder, a transformação de um corpo mortal em outro celestial foi melhor explorada em outros exemplares da literatura intertestamentária que se encarregaram de democratizar a imortalidade de uns poucos.

    1.4 Restauração corporal

    No judaísmo posterior ao exílio, talvez por influência persa e pela constatação de que muitos justos sofrem e maus prosperam nesta vida, começam a se desenvolver ideias a respeito da ressurreição dos mortos, i.e., a reunião da alma dos falecidos com corpo a ocorrer durante a concretização das profecias apocalípticas. Seria o tempo de as injustiças serem reparadas:

    Como mulher grávida, ao aproximar-se a hora do parto, se contorce e, nas suas dores, dá gritos, assim nos encontrávamos nós na tua presença, ó Iahweh: Concebemos e tivemos as dores do parto, mas quando demos à luz, eis que era vento: não asseguramos a salvação da terra; não nasceram novos habitantes para o mundo. Os teus mortos tornarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão. Despertai e cantai, vós os que habitais o pó, porque o teu orvalho será um orvalho luminoso, e a terra dará à luz sombras.

    Isaías 26:17-19

    Nesse tempo levantar-se-á Miguel, o grande Príncipe, que se conserva junto aos filhos do teu povo. Será um tempo de tal angústia qual jamais terá havido até aquele tempo, desde que as nações existem. Mas nesse tempo o teu povo escapará, isto é, todos os que se encontrarem inscritos no Livro. E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão como o resplendor do firmamento; e os que ensinam a muitos a justificar hão de ser como as estrelas, por toda a eternidade. Quanto a ti, Daniel, guarda em segredo estas palavras e mantém lacrado o livro até o tempo do Fim. Muitos andarão errantes, e a iniquidade aumentará.

    Daniel 12:1-4

    Neste caso, o Xeol passaria a ser um estágio intermediário enquanto os mortos esperam o fim da realidade tal como conhecemos, que cederá lugar ao “Mundo Vindouro”, quando a opressão sobre os judeus terminará, o Mal será punido e os justos recompensados.

    No deuterocanônico II Macabeus, torna-se mais explícita a crença em uma restauração corporal. Era uma forma de honrar aqueles que morreram por sua fé na luta contra o domínio da dinastia helênica dos Selêucidas na Palestina.

    Passado também este à outra vida, passaram a torturar da mesma forma ao quarto, desfigurando-o. Estando ele próximo a morrer, assim falou: “É desejável passar à outra vida às mãos dos homens, tendo da parte de Deus as esperanças de ser ressuscitado por Ele. Mas para ti, ao contrário, não haverá ressurreição para a vida!”

    II Mc 7:13-4

    Depois, tendo organizado uma coleta individual, enviou a Jerusalém cerca de duas mil dracmas de prata, a fim de que se oferecesse o sacrifício pelo pecado: agiu absolutamente bem e nobremente, com o pensamento na ressurreição. De fato, se ele não esperasse que os que haviam sucumbido iriam ressuscitar, seria supérfluo e tolo rezar pelos mortos. Mas se considerava que uma belíssima recompensa está reservada para os que adormecem na piedade, então era santo e piedoso seu modo de pensar (5).

    II Mc 12:43-5

    Repare a semelhança entre II Mc 7:14 e o registro feito por Flávio Josefo (6) sobre a crença da facção dos fariseus:

    Eles também acreditavam que as almas tinham uma força imortal dentro delas e que sob a terra elas serão premiadas ou punidas, segundo elas tivessem vivido virtuosamente ou em vício esta vida; e estas últimas são mantidas numa prisão eterna, ao passo que as primeiras terão o poder de revivificar-se e viver novamente (…)

    Antiguidades Judaicas, livro XVIII, cap. I

    Uma forma curiosa de ressurreição apenas para os bons. Contudo, a independência de Israel durou pouco e os romanos tomaram o lugar dos Selêucidas. Uma nova literatura apocalíptica floresceu em torno da imagem desse novo agressor.

    [topo]

    2 – II Baruque: um Apocalipse Judaico por Excelência

    Quadro da destruição do Templo

    A Destruição do Templo em Jerusalém, por Francesco Hayez (1867).

    Apesar de todas as previsões da escatologia judaica quanto à vinda do Messias e advento do Reino de Deus, algo saiu errado. Em 70 d.C., uma revolta judaica foi esmagada pelas tropas do general Tito, a população de Jerusalém foi chacinada, a cidade reduzida a escombros e tesouro do Templo saqueado. Os “kittim” [grego-romanos] venceram e o processo de diáspora se acelerou. Com o mundo em que Jesus viveu se extinguindo e um judaísmo estupefato com a tragédia, os sobreviventes precisavam de uma explicação para o ocorrido.

    Uma das respostas veio em Apocalipse de Baruque (ou II Baruque), datada no final do século I e começo do II. Nele (2) são narrados diálogos de Baruque (ou Baruch, Baruc), contemporâneo da tomada de Jerusalém pelos babilônicos ocorrida em 587 a.C., a lamentar com o próprio Criador e vozes celestes a sorte de Sião, sua pátria, e indagar-lhes o porquê da calamidade. É nítida a intenção do desconhecido autor do livro de comparar destruição que presenciou com aquela ocorrida séculos antes, além de levantar o moral de seu povo ao afirmar que tudo isso já estava previsto e dias melhores viriam com a chegada do Messias (“Ungido”) aos que persistissem na Lei. Eis alguns trechos elucidativos:

    IV – Nova Jerusalém

    Falou-me então o Senhor: “Sim, esta cidade [Jerusalém] será abandonada por algum tempo, e temporariamente será castigado o seu povo; contudo, o mundo não terminará. Pensas tu por acaso que é esta a cidade da qual eu falei: ‘Trago-te inscrita nas minhas mãos’?, não, esta vossa cidade, com as suas edificações, não é a cidade futura que eu anunciei, já anteriormente preparada, desde o tempo em que decidi criar o Paraíso. Eu mostrei-a a Adão antes da queda em pecado; ela foi-lhe tirada juntamente com o Paraíso, depois que ele se rebelou contra a proibição.

    “Mostrei-a também ao meu servo Abraão, naquela noite, entre as oferendas partidas ao meio. Mostrei-a a Moisés sobre o monte Sinai, onde lhe expliquei a imagem do tabernáculo e todos os seus utensílios. Assim, ela continuará preparada na minha mente, juntamente com o Paraíso. Vai, pois, e faz o que eu te ordeno!”

    XXIX – O Messias

    Ele falou-me: “O que vai acontecer atingirá toda a terra; dessa forma, experimentá-lo-ão todos os que estiverem em vida. Mas naquele tempo eu protegerei apenas aqueles que nesses dias se encontrarem neste país [Sião]. Uma vez cumprido aquilo que deve acontecer nos períodos do tempo, o Messias começará a sua revelação. Também Behemoth virá dos seus domínios, e Leviatã se levantará do mar; os dois imensos monstros marinhos por mim criados no quinto dia da Criação, e que reservo para aqueles dias; eles servirão de alimento para todos os que sobreviverem.

    “Então a terra produzirá os seus frutos ao cêntuplo; numa cepa de videira haverá mil ramos, um ramo carregará mil racimos, e um racimo mil bagos, e um bago data até quarenta litros de vinho (3). Os que sofreram fome comerão regiamente, e a cada dia lhes estão reservadas novas maravilhas (4).

    “Pois de mim procederão ventos que trarão todas as manhãs o perfume de frutos saborosos, e farão gotejar ao final do dia o orvalho salvífico. Do alto cairá de novo grande quantidade de maná; dele comerão eles naqueles anos, por haverem participado do final dos tempos”.

    XXXII – Reconstrução de Sião

    “Mas preparai os vossos corações e semeai neles os frutos da Lei, para estardes protegidos no tempo em que o Todo-Poderoso haverá de abalar toda a Criação. Pois as edificações de Sião dentro de pouco tempo serão aniquiladas, mas logo em seguida reconstruídas.

    “Todavia, essa reconstrução não durará muito; após algum tempo, Sião será arrasada uma vez mais e permanecerá em destroços por um período. Depois será renovada em todo o esplendor, e, uma vez plenamente reconstruída, permanecerá para todo o sempre.

    “Não devemos perturbar-vos excessivamente com a desgraça que aconteceu, mas muito mais com aquilo que ainda há de vir. Pois, maior ainda do que ambas essas calamidades será o embate em que o Todo-Poderoso renovará a sua Criação. Agora, porém, não te preocupeis mais por alguns dias! Não vos preocupeis comigo, até que eu volte para junto de vós!”

    Após essas palavras, eu, Baruch, segui meu caminho. Mas quando o povo percebeu que eu desejava afastar-me, levantou a voz em lamentos, clamando: “Aonde vais tu? Por que, Baruch, nos abandona, como um pai que vai embora e deixa os filhos na orfandade? (…)”

    Fonte [Tricca, p. 304,316-8]

    A glória que viria após a vitória final do Bem não seria vivenciada apenas pelos que houvessem nascido um pouco antes, mas também pelos morto, que seriam restaurados. Uma inovação que II Baruque traz é que os maus também ressuscitariam para o castigo. Ele assim relata:

    “Terminado o tempo vigente do Messias, Ele voltará de novo à glória do céu. Então haverão de ressuscitar todos aqueles que outrora adormeceram na esperança. Naquele tempo acontecerá que se abrirão as câmaras onde se demoram as almas dos piedosos; elas sairão, e todas essas numerosas almas, como uma legião de um só coração, apareceram todas juntas, abertamente. As que foram as primeiras, alegrar-se-ão; as que foram as últimas, não estarão tristes.

    “Cada uma delas sabe que foi chegado o tempo, previsto como o fim de todos os tempos. As almas dos pecadores perder-se-ão em angústia, ao presenciarem tudo isso. Pois elas já sabem que o tormento as atingirá, e que a hora da sua condenação é chegada.”

    Cap. XXX. Fonte: [Tricca, p. 317]

    O mesmo livro vai além e descreve o próprio processo de ressurreição:

    Mas além disso, eu te pergunto, ó Poderoso; e pedirei graça dele que criou todas as coisas. Em qual forma irão os viventes viver em seu dia? Ou como permanecerá o esplendor que haverá depois dele? Irão eles, talvez, retomar esta presente forma e adquirirão membros acorrentados que são malignos e pelos quais males são feitos? Ou irás mudar essas coisas que têm estado no mundo, bem como o próprio mundo?

    E ele respondeu e me disse: “Ouça, Baruch, estas palavra e registre na memória de seu coração tudo o que aprenderá. Pois a terra seguramente devolverá os mortos naquele tempo; ela os recebe agora a fim de preservá-los, sem mudar nada em sua forma. Mas assim como ela os tem recebido, então ela os devolverá. E como eu os tenho enviado para ela, então ela os erguerá. Pois aí será necessário mostrar aos que vivem que os mortos estão vivendo novamente e que voltaram os que partiram. E será então quando tiverem reconhecido uns aos outros aqueles que se conhecem neste momento, então meu julgamento será forte e aquelas coisas que foram ditas antes serão cumpridas.“

    E será então após esse dia que ele indicou ter acabado é que tanto a forma daqueles que se descobriram culpados quanto a glória dos que se demonstraram justos serão mudadas. “Pois a forma dos que agora agem iniquamente será feita mais maligna que é (agora) de modo que sofram tormento. Também, como a glória dos que demonstraram serem justos em nome de minha lei, os que possuíram inteligência em sua vida e os que plantaram a raiz da sabedoria em seu coração – seu esplendor será então glorificado por transformações e a forma de sua face será convertida na luz de sua beleza de modo que possam adquirir e receber um mundo imperecível que está prometido a eles. Portanto, especialmente eles que então virão a ficar tristes, porque desprezaram minha Lei e taparam seus ouvidos a fim de que não ouvissem sabedoria e recebessem inteligência. Quando, portanto, virem que os que estão acima deles, que são agora exaltados, serão então ainda mais exaltados e glorificados que eles, então tanto estes e aqueles serão mudados, estes no esplendor dos anjos e aqueles em aspectos chocantes e formas horríveis; e arrasar-se-ão ainda mais. Pois primeiro verão e, então, partirão para o tormento. (…)” (7)

    Cap 49-51. Fonte: [Charlesworth, p. 637-8] (8)

    Desse apocalipse judaico, fica claro um paralelo com a defesa de Paulo da ressurreição mortos através de transformação de um corpo material em espiritual (I Cor 15), que será vista a seguir.
    [topo]

    3 – Paulo: um Apocalipsista Cristão

    Ícone de Paulo de Tarso

    Em sua primeira carta aos coríntios, Paulo trata de diversos problemas enfrentados por uma das assembleias que fundou. No capítulo XV, ele trata particularmente de uma questão doutrinária que surgira entre eles:

    Ora, se prega que Cristo ressuscitou dos mortos como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa pregação, vazia também é a vossa fé. Acontece mesmo que somos falsas testemunhas de Deus, pois atestamos contra Deus que ele ressuscitou a Cristo, quando de fato não ressuscitou, se é que mortos ressuscitam. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. E, se Cristo não ressuscitou, ilusória é a vossa fé; ainda estais nos vossos pecados. Por conseguinte, aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se temos esperança em Cristo tão-somente para esta vida, somos os mais dignos de compaixão de todos os homens.
    (1 Co 15.14-20).

    Ao que aparenta, alguns membros daquela igreja estavam descrentes da ressurreição dos mortos. Paulo, então, não tenta convencê-los disso, mas lembrá-los de algo que eles já aceitam: a ressurreição do próprio Jesus como exemplo dessa possibilidade.

    Mas, dirá alguém, como ressuscitam os mortos? Com que corpo voltam? Insensato! O que semeias não readquire vida a não ser que morra. E se o que semeias não é o corpo da futura planta que deve nascer, mais um simples grão de trigo ou de qualquer outra espécie. A seguir, Deus lhe dá corpo como quer; a cada uma das sementes ele dá o corpo que lhe é próprio.

    Nenhuma carne é igual às outras, mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos quadrúpedes, outra a dos pássaros, outra a dos peixes. Há corpos celestes e corpos terrestres. São, porém, diversos o brilhos dos celestes e o brilho dos terrestres. Um é o brilho do Sol, outro o brilho da Lua,e outro o brilho das estrelas. E até de estrela para estrela há diferenças de brilho. O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual.

    Se há um corpo psíquico, há também um corpo espiritual. Assim está escrito: o primeiro homem, Adão, foi feito alma vivente; o último Adão tornou-se espírito que dá a vida. Primeiro foi feito não o que é espiritual, mas o que é psíquico; o que é espiritual vem depois. O primeiro homem, tirado da terra, é terrestre. O segundo homem vem do céu. Qual foi o homem terrestre, tais são os homens celestes. E assim como trouxemos a imagem do homem terrestre, assim traremos a imagem do homem celeste.

    (I Co.15:35-49)

    Tomando Jesus como modelo (o “segundo homem”), a ressurreição para Paulo não consiste numa existência etérea, quase desencorpada, mas na transformação do corpo carnal em outro melhor, celestial. A afirmação mais contundente de Paulo, porém, foi deixada bem para o fim:

    Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade. Eis que vos dou a conhecer um mistério: nem todos morreremos, mas todos seremos transformados, num instante, num abrir e fechar de olhos, ao som da trombeta final; sim a trombeta tocará, e os mortos ressurgirão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Com efeito, é necessário que este ser corruptível revista a incorruptibilidade e que este ser mortal revista a imortalidade.

    I Cor 15:50-5

    Portanto, o apóstolo dos gentios cria que essa ressurreição seria um evento iminente, que se daria até mesmo para alguns de seus conhecidos que ainda estivessem vivos e consistiria, tal como em II Baruque ou I Enoque, não no descarte do corpo físico, mas em sua modificação. Ela seria não um evento rotineiro como a reencarnação espírita (ressurreição material, segundo eles) ou o desencarne (ressurreição espiritual), mas um episódio ímpar destinado a se concretizar apenas no fim dos tempos, do mundo tal como o conhecemos (cf. I Cor 15:20-28).

    Ou seja, a ressurreição é ponto fundamental do cristianismo e se dará num corpo análogo ao de Cristo ressuscitado. Em A Gênese, cap XV, 65, Kardec dá a ideia de que Jesus teria dois corpos: o carnal e o fluídico. O primeiro foi sepultado e o segundo foi o que teria aparecido para os apóstolos. Não era essa a crença contida contida em I Coríntios ou II Baruque. A ressurreição, segundo esses autores antigos, não deixaria restos. Em vez disso, esses restos seriam matéria-prima para algo novo
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    4 – Outras Visões da Ressurreição

    Fênix renascida.

    Vale lembrar que opiniões sobre a ressurreição expostas acima são de judeus que criam nela, como Paulo e o anônimo autor de II Baruque. A seita judaica dos saduceus (9) não acreditava nela e os essênios, aparentemente, criam numa imortalidade meramente espiritual. A literatura patrística registrou variantes da opinião paulina:

    – Clemente I (30 -100): bispo de Roma (na época não existia a denominação Papa) e possivelmente companheiro de Paulo em Filipos, comparou a ressurreição à lenda da Fênix, em sua carta aos coríntios, cap XXV – A Fênix, um emblema de nossa ressurreição:

    Vamos considerar este maravilhoso sinal [de ressurreição] que acontece nas terras orientais, isto é, na Arábia e países adjacentes. Há certo pássaro que é chamado Fênix. Este é o único de sua espécie e vive quinhentos anos. E quando o tempo de sua dissolução mostra que sua morte está próxima, constrói por si só um ninho de olíbano, mirra e outras especiarias, no qual, quando é chegada a hora, entra e morre. Mas a medida que a carne se decompõe, um certo tipo de verme é produzido, que sendo alimentado pelos fluidos do pássaros morto, produz penas. Então, quando adquire força, ergue o ninho em que estão os ossos de seu pai e, carregando-os, vai da Arábia para o Egito, para a cidade chamada Heliópolis. E, num dia de céu limpo, voando à vista de todos os homens, deposita-os sobre o altar do sol, e feito isto, apressa-se em voltar à antiga residência. Os sacerdotes, então, inspecionam o registro das datas e descobrem que ele retornou exatamente ao quingentésimo ano ser completado.

    – Justino Mártir (100-165): acreditava na ressurreição da carne, pois tinha uma visão tríplice do ser humano: corpo, alma e espírito. Em seu tratado sobre a ressurreição (*), cap. X:

    A ressurreição é uma ressurreição da carne que morreu. Visto que o espírito não morre, a alma está no corpo, e sem uma alma ele não pode viver. O corpo, quando a alma o abandona, perece. Visto que o corpo é a casa da alma e a alma é a casa do espírito. Estes três, em todos aqueles que nutrem uma fé sincera e inquestionável em Deus, serão salvos. Considerando, portanto, mesmo tais argumentos como são adequados a este mundo e descobrindo que, mesmo com tais argumentos, não é impossível que a carne seja regenerada; e vendo que, além de todas estas provas, o Salvador em todo o Evangelho mostra que há salvação para a carne, por que não deixamos de aturar esses céticos e perigosos argumentos e falhamos em ver que retrocedemos quando escutamos tais argumentos como se fossem: a alma é imortal, mas o corpo é mortal e incapaz de ser redivivo?

    (*) Só restam fragmentos deste tratado. Não há certeza absoluta que são de sua autoria, mas há forte possibilidade de que sejam.

    – Irineu de Lião (120? – 200?): segue a interpretação paulina de um corpo carnal incorrupto em seu “Contra as heresias”, livro V, cap VII:

    Da mesma maneira que Cristo se ergue na substância da carne e assinalou para Seus discípulos a marcas dos cravos a abertura em seu lado [Jo 20:20,25] (agora estes são símbolos da carne que ascendeu dos mortos), então “Ele também irá”, diz [I Co 6:14], “nos ressuscitar pelo seu próprio poder”. E mais uma vez diz aos romanos [Rom 8:11], “e se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos dará vida também aos vossos corpos mortais”. Então o que são corpos mortais? Seriam eles almas? Não, visto que almas são incorpóreas quando postas em “comparação com corpos mortais; pois Deus soprou na face do homem o sopro da vida e o homem se tornou alma vivente”. Agora o sopro da vida é algo incorpóreo. E certamente eles não podem manter aquele mesmo sopro da vida que é mortal. (… ) Nos devemos assim concluir que isto é em referência a carne cuja morte é mencionada; que, depois da partida da alma, torna-se parada e inanimada e se decompõe gradualmente na terra de onde foi tirada. Isto, então, é o que é mortal. E é disto que ele também fala, “Ele dará vida a seus corpos mortais”. E assim em referência a isto ele diz na primeira [epístola] aos coríntios: “O mesmo se dá com a ressurreição dos mortos; semeado corruptível, ressuscita incorruptível.” Visto que declara,”O que semeias não readquire vida até que morra.”

    – Orígenes ( 182? – 254?): É um dos mais controversos teólogos pré-nicenos, utilizado, equivocadamente, por grupos esotéricos e espiritualistas para reforçar suas teses. No “Analisando as Traduções Bíblicas”, cap. XVI, de Severino C. da Silva, 4ª ed., Idéia; aparece a seguinte alusão a Orígenes:

    O teólogo cristão primitivo, Orígenes de Alexandria, sugere uma versão diferente. Ele defendia que haveria duas ressurreições, uma no final dos tempos e outra “do espírito, da vontade e da fé”, que poderia ocorrer durante a vida. Este conceito apresenta a ressurreição como sinônimo de Reencarnação. Orígenes também achava que o corpo da ressurreição era um corpo espiritual que não tinha nenhuma relação com o corpo mortal.

    Severino C. da Silva dá como embasamento desta opinião a obra “Reencarnação: O Elo perdido do Cristianismo“, de Elizabeth Clare Prophet; portanto não se baseou no original de Orígenes. Sugiro uma leitura na categoria Patrística para saber a verdadeira opinião de Orígenes quanto a “transmigração de almas”. Por hora, deixemos o próprio Orígenes contar suas ideias quanto à ressurreição: na obra De Principiis, livro II, cap X; ele também disserta sobre o enfoque de Paulo:

    O que então? Se é certo que devemos fazer uso de corpos, e se os corpos caídos são declarados ter de erguer-se novamente (pois apenas o que caiu antes pode ter a adequada capacidade de se reerguer), não pode ser matéria de dúvida a ninguém que eles se erguem de novo para que sejamos revestidos com eles uma segunda vez na ressurreição. Uma coisa está estreitamente relacionada com a outra. Pois se corpos são erguido outra vez, sem dúvida eles se erguem para nos revestir; e se nos é necessários ser investidos de corpos, como é certamente necessário, não devemos ser investidos com nenhum outro senão o nosso próprio.

    Mas se é verdade que eles se reerguem e que ressuscitam como corpos “espirituais”, não pode haver dúvida que eles vêm do morto, após se livrarem da corrupção e posto de lado a mortalidade; de outra forma pareceria vão e inútil a qualquer um ressuscitar dos mortos para morrer uma segunda vez. E finalmente isto deve ser mais distintamente compreendido desta forma, se cuidadosamente se considerar quais são as qualidades de um corpo animal, que, quando semeado na terra, recupera as de um corpo espiritual. Pois é de um corpo animal que o próprio poder e graça da ressurreição extraem o corpo espiritual, quando ele transmuta de uma condição indigna para uma de glória.

    Pois é… não seria um novo corpo ou apenas o perispírito, mas o mesmo corpo modificado. A questão é, como Orígenes imaginou essa transformação:

    Nós, porém, estamos convencidos de que aquilo que semeamos “não adquire vida a não ser que morra” e “não é o corpo da futura planta” que é semeado. Pois “Deus dá o corpo que quer”: semeado “corruptível, o corpo ressuscita incorruptível, semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado desprezível, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual” (I Cor 15:36-44). Conservamos tanto a doutrina da igreja de Cristo quanto a grandeza da promessa de Deus. Podemos provar que é uma coisa possível não por uma afirmação mas por meio do argumento. (…) Portanto, não afirmamos que o corpo putrefato voltará à sua verdadeira natureza original, assim como o grão de trigo, uma vez corrompido, não retorna ao seu estado de grão de trigo. Afirmamos que, assim como do grão de trigo surge uma espiga, há também no corpo um princípio que não está sujeito à corrupção, a partir do qual o corpo surge “incorruptível”. (…) Não recorremos à mais absurda evasiva: tudo é possível para Deus; pois sabemos entender a palavra “tudo” sem incluir nela o que não tem existência ou não é concebível. Concordamos assim que Deus nada pode fazer de vergonhoso, pois então Deus não poderia ser Deus: pois se Deus fizesse algo de vergonhoso, não seria Deus.

    Contra Celso, V.22-3

    Qual era esse “princípio não sujeito à corrupção” só é explicado bem mais adiante:

    Celso não compreendeu nossa doutrina da ressurreição, doutrina rica, difícil de expor, por exigir mais do que qualquer outra intérprete bem preparado para mostrar o quanto esta doutrina é digna de Deus e sublime: de acordo com ela, existe uma relação seminal no que a Escritura chama de tenda da alma (II Cor 5:4), na qual os justos gemem acabrunhados; e gostariam de não ser “despojados de sua veste, mas revestir a outra por cima desta” (idem). Por ter ouvido falar da ressurreição da boca de pessoas simples, incapazes de apoiá-la com qualquer razão, ridiculariza o que se afirma. Será útil acrescentar ao que ficou dito acima esta simples observação sobre a doutrina: não é, como acredita Celso, por ter compreendido mal a doutrina da metensomatose que nós falamos de ressurreição; mas é porque sabemos que a alma, que por sua própria natureza é incorpórea e invisível, precisa, quando se encontra num lugar corporal qualquer, de um corpo apropriado por sua natureza neste lugar. Ela carrega este corpo depois de ter abandonado a veste, necessária antes, mas supérflua para um segundo estado, e a seguir, após tê-lo revestido por cima com aquela veste que tinha inicialmente, porque precisa de uma veste melhor para chegar às regiões mais puras, etéreas e celestes. Ao nascer para o mundo, ela abandonou a placenta que era útil à sua formação no seio de sua mãe enquanto nela se encontrava; revestiu por baixo o que era necessário a um ser que viveria na terra.

    Contra Celso, VII.32

    Essa “relação/princípio seminal” (logos spermatikos) seria uma espécie de lei ou força que, por sua própria natureza, sobreviveria à morte e, nutrindo-se com os elementos adequados, conforme a situação em que se encontrasse, construiria um novo invólucro. O corpo atual e o futuro seriam contínuos por esse princípio, mas não em substância. Vale atentar que Orígenes usou aqui a mesma expressão de filósofos estoicos para se referir ao “princípio gerativo” responsável pela renovação do universo. Com isso, novos adversários pagãos teriam a dificuldade extra de rejeitar suas próprias ideias.

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    5 – A Questão da Gilgul

    Escultura de uma roda de carruagem

    A crença na transmigração de almas (gilgul neshamot – “roda de almas”) é mais tardia, tendo sido assimilada por certas correntes judaicas ao longo da Idade Média e posteriormente. Ainda é matéria de discussão entre os historiadores de como isso ocorreu exatamente (10).

    Assim relata a Jewish Enclyclopedia

    Transmigração das almas: A passagem de alma em sucessivos formas corpóreas, sejam humanas ou animais. De acordo com Pitágoras, que provavelmente aprendeu a doutrina no Egito, a mente racional, após ter se libertado dos grilhões do corpo, assume uma veículo etéreo e passa para a região dos mortos, onde permanece até ser enviada de volta a este mundo para habitar algum outro corpo, humano ou animal. Depois de passar por sucessivas purgações e quando estiver suficientemente purificada, ela é recebida entre os deuses e retorna para a fonte eterna de onde originalmente procedeu. Esta doutrina era estranha ao judaísmo até cerca do século oitavo, quando, sob influência de místicos maometanos, foi adota pelos caraítas e outras dissidências judaicas. Ela é mencionada pela primeira vez na literatura judaica por Saadia [Gaon], que protestou contra esta crença, que em seu tempo era compartilhada pelos yudghanitas(…)”

    Assim relatou Saadia Gaon:

    Embora eu deva dizer que tenho encontrado certas pessoas, que chamam a si mesmas de judias, professando a doutrina da metempsicose, que é designada por eles com a teoria da “transmigração” das almas. O que ele querem dizer com isso é que o espírito de Rúben transferiu-se a Simão e depois a Levi e, em seguida a isto, a Judá. Muitos deles iriam tão longe como ao ponto de afirmar que o espírito de um ser humano pode entrar no corpo de uma fera ou que o de uma fera no de uma ser humano e outros tipos de absurdo e estupidez”

    Saadia Gaon, Livro das crenças e opiniões, tratado VI, cap. VIII, “A alma”. Acesse aqui para uma versão completa do texto.

    A primeira aparição da doutrina da gilgul em um tratado esotérico escrito vem a ocorrer só no século XII, num trabalho intitulado Bahir. A partir daí, a reencarnação se torna popular entre a vertente mística do judaísmo, a Cabala.

    De 1.200 d.C. A 1.500, ocorreram trabalhos cabalísticos afirmando a possibilidade em alguns casos de transmigração para corpos de animais. Esta ideia entrou em declínio depois, apesar de nunca ter desaparecido totalmente (11).

    Atualmente, a reencarnação não é professada por boa parte dos judeus, e muitos desses alegam que judeus não devem adotá-la. Ela ainda permanece vigente entre cabalistas, muitos grupo judaicos hassídicos (seita fundada no século XVIII) e até mesmo entre alguns ultraortodoxos.

    Para outros, como o professor e rabino Yehuda Ribco é lícito um judeu crer em reencarnação, mas não uma questão central do judaísmo, e nem mesmo ele a defende:

    Logo, e já passando a responder: graças a Deus não sou o único que não compartilha da ideia da reencarnação (gilgul haneshamot), pois houve outros, anteriores e imensamente maiores que este humilde mestre, que se opuseram, tal qual Saadia Gaon, Bajia ibn Pakuda, Iosef ibn Tzadik, e até (segundo alguns entendidos) o príncipe dos pensadores judaicos: Rambam [Maimônides], entre outros.

    Se bem é certo, outros insignes mestres e filósofos a sustentaram (Ramban [Nachmânides] e Baal Shem Tov, por exemplo, ambos posteriores a aparição pública do Zohar), não é por isso que a ideia da reencarnação é parte das crenças judaicas centrais, nem é obrigação que se compartilhe dela.

    (…)

    Em resumo: a reencarnação é uma crença individual (ou de certos grupos), tal como a descrença na mesma o é. É uma crença de natureza restrita e que não atenta contra os princípios gerais e superiores (Torá e halacá); nem tão pouco é obrigatório compartilhá-la. Portanto, não há razão de identificá-la ao judeu e ao judaísmo, tal como, por exemplo, a crença em alienígenas.

    De fato, a conversão do escritor judeu americano Norman Mailer à crença na reencarnação chamou atenção até da imprensa:

    Como todo construtor de crenças de ocasião, Mailer não quer perder o vínculo com a religião original. Embora os cabalistas acreditem na transmigração de almas, a reencarnação não faz parte da essência da fé judaica. Não é mencionada na Bíblia, nem na literatura rabínica”

    Revista Veja, edição 1834, ano de 2003, pág. 125.

    Já a ressurreição é dogma (ou lei como preferem) a todas as correntes do judaísmo:

    A crença na ressurreição dos mortos é declarada nas orações, na teologia e na lei: no fim dos dias, a morte morrerá. A certeza da ressurreição origina-se de um fato simples da teologia restauracionista: Deus já mostrou que pode fazê-la.

    Você observa que tudo o que o Sagrado, abençoado o seja, destina-se a fazer nos dia vindouros ele já se adiantou e fez por meio dos justos nesse mundo. O Sagrado, abençoado seja, levantará os mortos, e Elias levantou os mortos.

    O fato de Deus erguer os mortos leva à última pergunta: quem ele erguerá dos mortos? E a resposta é: “Todo Israel, com poucas exceções”. Por Israel entendem-se aqueles que serão erguidos dentre os mortos; praticar o judaísmo e guardar a Torá e escolher a vida eterna, de acordo com a admoestação de Moisés em Deuteronômio 30:19: “Portanto, escolhe a vida”. Aquela definição de quem é israelita e o que é Israel – aqueles que se levantarão do túmulo, o povo destinado à vida eterna nos céus – retira o modo de vida judaico do domínio meramente étnico ou terreno.

    [Neusner, cap VII]

    A morte, todavia, não assinala o fim da vida. Nos tempos de Deus, os mortos viverão novamente. A ressurreição representa a mais completa metamorfose de uma experiência desse mundo: a morte simboliza o seu oposto, a vida eterna. Na lei judaica, a reação à antecipada transformação traduz-se numa regra especial e estrita contra a autópsia ou a desfiguração do corpo. Os mortos viverão, portanto, o corpo deve ser preservado como foi em vida, tanto quanto possível, para a ressurreição vindoura.

    Idem, cap IV

    Portanto, é errôneo afirmar que a “ressurreição era a reencarnação entendida pelo judeus da época de Cristo”, pois mesmo os grupos que professam a gilgul modernamente, lhe dão tratamento diferente da ressurreição (12). Há até questões de ordem teológica própria, como “qual corpo será o ressuscitado?” Alguns grupos alegam que apenas última encarnação será ressuscitada; outras, a primeira, e até há quem creia em uma ressurreição que englobe todo o conjunto de vidas (13).

    Do exposto acima, conclui-se que a doutrina da reencarnação entrou tardiamente no judaísmo, só sendo posta por escrito na Idade Média e ainda hoje não é consenso.
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    6 – Distorções Espíritas

    Ciclo da reencarnação

    Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa.

    Todas as versões acima quanto ao processo de ressurreição possuem um traço comum: de algum modo, o novo corpo espiritual é produzido a partir do antigo corpo material. Para os proto-ortodoxos, o mundo material era inerentemente bom como seu Criador, embora corrompido pelas forças do Mal. Mas no fim dos tempos, ele também seria redimido. Para os gnóstico, a situação era bem distinta: o mundo material fora criado por uma divindade inferior e maligna, escapar dele seria a atitude correta. O espiritismo, por sua vez, não julga o mundo material como algo ruim, embora ele tenha limites de melhoria (as leis naturais) e seja apenas um estágio transitório na jornada evolutiva de um espírito. Assim, não é incomum encontrar autores espíritas que tentam expor a ressurreição antiga como uma espécie de desencarne: o simples descarte do corpo físico e permanência do corpo perispiritual subjacente.
    Para obter esses efeito, lança-se mão dos seguintes artifícios:

    • A boa e velha misquotation: Escolher um pequeno fragmento a dedo para que ele, destacado do conjunto, aparente corroborar essa tese. Por exemplo, pegue I Coríntios 15:50: “Digo-vos, irmãos: a carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorruptibilidade“. Agora, prolongue a citação até o versículo 55 e veja as implicações;

    • Desconsiderar a escatologia: A ressurreição em corpo espiritual ocorreria apenas no fim dos tempos, com a vinda do Messias (II Baruque) ou, para os cristãos, sua segunda vinda (cf. I Cor 15:20-28), ao contrários dos exemplos relatados evangelhos, cujos ressuscitados certamente morreriam outra vez, nem que fosse de velhice. O que aconteceria entre a morte nesta era e a consumação final é ambíguo nas escrituras, podendo-se buscar ao bel-prazer passagens sobre aniquilação, um Xeol de simples espera ou castigos e recompensas logo após a morte. De qualquer forma, a ressurreição não é um simples retorno ao mundo espiritual após o “desencarne”, mas o estágio final da existência humana (ao menos para os “salvos”) com data para ocorrer e de forma coletiva;

    • Fazer jogo com os evangelhos: O modelo de ressurreição apresentado acima é, entre os cristãos, essencialmente sinóptico e paulino. O cristianismo joanino, por sua vez, quase nada possui de escatologia. Para os primeiros, o Reino de Deus é uma mudança temporal e cataclísmica, ao passo a comunidade joanina o via como uma mudança espacial (ou dimensional, se preferir): “Meu reino não é deste mundo” (Jo 18:36). Evangelho de João dá tanto valor ao espiritual, que até mesmo uma parte da comunidade em que ele surgiu (cf. Segunda Epístola de João) passou a negar que Jesus tivesse um corpo físico real, apenas aparentando um (i.e., inventaram o docetismo (14). Já no século II, o Evangelho de João seria, inclusive, admirado por gnósticos, que viram nele similaridades com sua doutrina (15). Óbvio que a proto-ortodoxia, ao adotar João como canônico, não o interpretava assim, procurando harmonizá-lo com os sinópticos. O discurso espírita, então, consiste em desfazer essa harmonização, ao enfatizar os itens convenientes da mensagem de João (16);

    • Usar a consultoria de judeus ortodoxos: Que, por coincidência, também creiam na gilgul neshamot. Nada contra um filho de Abraão expressar seu entendimento sobre o pós-morte. A questão é saber o quanto a opinião de um judeu moderno seria representativa no judaísmo do primeiro século. Mal comparando, seria como se fiar num católico para afirmar que o culto aos santos era corrente entre os primeiros cristãos. Note que não estou afirmando que seja errado cultuar santos ou acreditar na gilgul, a questão é que tais crenças são inovações que surgiram, em suas respectivas religiões, bem depois dos tempos de Jesus. Há muitas coisas, sem dúvida, em que os judeus ortodoxos foram conservadores, mas é irrealista supor que tenham permanecido estáticos por 2.000 anos e possam ser usados como “pedra de toque”, sem nenhuma ressalva, para estudar o judaísmo intertestamentário.

    ***

    Caso se queira realmente validar a crença da reencarnação na Bíblia, é necessário comprovar que o contexto em que ela foi produzido era reencarnacionista. As seguintes abordagens podem ser feitas:

    1. Obras que relatem certo ensino explicitamente: Foi, por exemplo, o caso da ressurreição em “II Baruque” ou nas cartas paulinas. Por outro, não seria viável considerar a reencarnação como presente no “nascer de novo” do diálogo entre Jesus e Nicodemos (Jo 3), pois o discurso é tão alegórico, que dá margem a múltiplas interpretações;

    2. Comentários religiosos: Os comentários rabínicos do midrash e as obras da patrística são silentes quanto ao assunto. Mesmo o sistema concebido por Orígenes, no século III, não era compatível com a proposta espírita para reencarnação. Gnósticos, sim, criam na reencarnação, só que, outra vez, “à moda deles”;

    3. Relatos de não religiosos: Flávio Josefo, pelo visto, revelou-se um tiro n’água.

    Assim, ao escolher frases a dedo, desconsiderar a evolução histórica do pós-morte judaica e tratar o cânon bíblico como monolítico, você pode até se dar bem contra religiosos presos à inerrância e autossuficiência bíblica, mas dificilmente poderá ser considerado um pesquisador.
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    Notas:

    (1) Cf. Gn 9:24-25, Dt 23:2, Dt 28:18, 2 Sm 12:13-14, 2 Sm 21:6, 1 Rs 2:33, 1 Rs 11:11-12, 1 Rs 21:29, 2 Rs 5:27, Is 14:21, Jr 16:10-11, Jr 29:21, Jr 32:18, Sl 109:14. Algumas passagens preveem o fim das punições hereditárias em um tempo futuro, como Jr 31:29-30, e algumas a negam desde já: Dt 24:16 e Ez 18:20.

    (2) Informo que II Baruque NÃO é continuação do deuterocanônico de mesmo nome, constante nas Bíblias católicas.

    (3) Obviamente, a unidade de medida “litro” não existia na época. Em versões inglesas do livro, encontra-se “a cor of wine”. Essa unidade de capacidade (cor) corresponderia a aproximadamente 400 litros (391 mais precisamente). Talvez um erro de digitação tenha transformado 400 em 40 e tradutor assim transcrito por extenso.

    (4) Compare essa fartura dos tempos pós-apocalípticos com aquela descrita mais acima no Livro de I Enoque, 10:9 -11:2. Um traço comum à literatura apocalíptica é a superabundância do Mundo Vindouro”.

    (5) Repare que os livros de Macabeus fazem menção explícita a orações pelos mortos. Isto pode ser um dos motivos que levaram os líderes da Reforma protestante a adotar a Bíblia hebraica como Antigo Testamento e assim eliminar de seu cânon um livro que iria contra a sua teologia, embora ele tivesse grande valor como documento histórico por narrar um genuíno episódio.

    (6) Se Flávio Josefo aponta os fariseus como defensores da reencarnação, como defendem alguns, favor explicar porque os maus, que mais precisariam de uma nova chance, não a teriam. Também explicar porque reencarnar num mundo de sofrimento seria alguma espécie de “recompensa”, se havia opções melhores…

    (7) No Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IV

    A reencarnação fazia parte dos dogmas judaicos sob o nome de ressurreição. Somente os saduceus, que pensavam que tudo acabava com a morte, não acreditavam nela. As ideias dos judeus sobre esse assunto, e sobre muitos outros, não estavam claramente definidas, pois apenas tinham noções vagas e incompletas sobre a alma e sua ligação com o corpo. Acreditavam que um homem que viveu podia reviver, sem entender entretanto de que modo isso podia acontecer. Designavam pela palavra ressurreição o que o Espiritismo chama mais apropriadamente de reencarnação. De fato, a ressurreição supõe o retorno à vida do corpo que está morto, o que a Ciência demonstra ser materialmente impossível, porque os elementos desse corpo estão, desde há muito tempo, desintegrados na Natureza. A reencarnação é o retorno da alma ou Espírito à vida corporal, mas em um outro corpo, formado novamente para ele, e que não tem nada em comum com o que se desintegrou. A palavra ressurreição podia assim se aplicar a Lázaro, mas não a Elias, nem aos outros profetas. Se, portanto, conforme se acreditava, João Batista era Elias, o corpo de João não podia ser o de Elias, porque João tinha sido visto desde criança e sabia-se quem eram seu pai e sua mãe. João, portanto, podia ser Elias reencarnado, mas não ressuscitado.

    Tal argumento de Kardec é muito questionável. Mesmo os grupos judaicos que desenvolveram em tempos medievais o conceito reencarnacionista gilgul ainda creem em ressurreição no fim dos tempos. Algumas facções alegam que apenas última encarnação será ressuscitada; outras, a primeira, e até há quem creia em uma ressurreição que englobe todo o conjunto de vidas [cf. Blau]. O fato de a ressurreição ser inviável do ponto de vista científico é irrelevante do ponto de vista de um historiador. Se os judeus do período intertestamentário advogavam uma ressurreição física, então qualquer estudo que se faça sobre eles deve respeitar isso, do contrário correrá o risco de distorcer o passado para que se adeque a ideias e vieses do presente. Por último, havia relatos que deixavam bem claro que tal ressurreição estava longe de ser reencarnação nos moldes espíritas ou um processo exclusivamente espiritual. O livro de II Baruque dá um exemplo disso, apresentando uma ressurreição física seguida por uma espécie de transfiguração.

    (8) O livro Apócrifos – Os Proscritos da Bíblia, vol. III, de Maria H. O. Tricca possui uma gigantesca lacuna em II Baruque, que vai do capítulo XL ao LXXXIX. Não creio que tenha sido só o meu exemplar, pois a numeração das páginas não dá saltos. Ao que me parece, não há ruptura no texto, apenas na numeração dos capítulos. Os capítulos XLIX – LI corresponderiam aos XCIX – CI dessa edição. Como consequência, o livro está incompleto. Ignoro se isso foi corrigido em edições posteriores e, por via das dúvidas, traduzi a referida passagem do texto inglês de Charlesworth.

    (9) Os saduceus, de acordo com o Evangelho segundo o Espiritismo, Introdução, item 3

    Seita judia que se formou por volta de 248 a.C.; assim nomeada devido a Sadoc, seu fundador. Os saduceus não acreditavam nem na imortalidade da alma, nem na ressurreição, nem nos bons e maus anjos. Entretanto, acreditavam em Deus, mas não esperavam nada após a morte, somente o serviam em vista de recompensas temporais que, segundo a crença que tinham, era ao que se limitava sua Providência. A satisfação dos sentidos era para eles o objetivo essencial da vida. Quanto às Escrituras, os saduceus se prendiam ao texto da antiga lei, não admitindo nem a tradição, nem nenhuma interpretação; colocavam as boas obras e a execução pura e simples da lei acima das práticas exteriores do culto. Eram, como podemos ver, os materialistas, os deístas e os sensualistas daquela época. Essa seita era pouco numerosa, mas contava com personagens importantes, e se tornou um partido político constantemente oposto aos fariseus.

    Não deixa de ser um tanto ilógico associar uma seita que cria em Deus e o temia com materialistas. O fato de crerem que esta vida era a única que poderiam almejar não os torna automaticamente sensualistas. Se as punições também eram deste mundo, era preciso seguir condutas éticas para evitá-las, e isso também pode ser encontrado na Antiga Lei. Seria um pouco de preconceito por não crerem em vida após a morte?

    (10) Vide [Raphael, cap. VIII, pp. 314-20] para uma análise histórica mais aprofundada.

    (11) De [Asheri, cap. XLI, pp. 251-2]:

    REENCARNAÇÃO: Em hebraico, a reencarnação é chamada de gilgul neshamot, e um grande número de judeus ortodoxos sustenta que em certas circunstâncias, nunca definidas de maneira muito clara, a alma de um judeu pode retornar à vida no corpo de outra pessoa ou até no de um animal ou de um planta. Não é necessariamente como castigo que o gilgul ocorre, mas com frequência alguma boa ação que a alma foi incapaz de realizar enquanto estava na Terra é completada na reencarnação dessa alma em outro corpo.

    Ver também [Raphael, cap. VIII, pp. 318-9].

    (12) Fazendo coro com Neusner:

    O MESSIAS E A RESSURREIÇÃO DOS MORTOS. De todas as crenças, esta é a mais amplamente aceita, sendo considerada por muitos ortodoxos como absoluto artigo de fé. Em resumo, diz-se que algum dia aparecerá um judeu que anunciará o fim do mundo, tal como o conhecemos, e a criação do Reino de Deus, no qual, finalmente, o leão se deitará ao lado do cordeiro. Esse judeu, e ele será uma pessoa, não uma encarnação de Deus (como se tal coisa fosse possível), é chamado de Mashiach, ou Messias. Quando ele chegar, haverá uma ressurreição dos mortos, chamada em hebraico de T’chiat Ha-metim, e todos os judeus ressurrectos reunir-se-ão em Israel, para lá viver eternamente. O Messias será um descendente da Casa de Davi e seu anúncio será feito por Elias, o Profeta (Eliahu Anavi).

    Nada muito diferente das crenças apocalípticas circulantes pela Judeia do século I.

    (13) Cf. [Blau]

    (14) Qualquer semelhança com Roustaing não é mera coincidência.

    (15) Em João, Jesus é um ser divino (O Verbo) enviado à terra como figura redentora (“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida“, Jo 14:6) para que por meio dele tenhamos o conhecimento necessário para nos libertarmos (“Conhecereis a verdade e a Verdade vos libertará“, Jo 8:32). Essas similaridades fizeram de João um prato cheio para os gnósticos e o primeiro comentário a esse evangelho foi feito por um gnóstico: Heracleão.

    (16) Quando o assunto é a Trindade, a tática é oposta: enfatizar os sinópticos e menosprezar João.
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    Para saber mais

    – Asheri, Michael; O Judaísmo Vivo – As tradições e as leis dos judeus praticantes, Imago, 1995.

    Bíblia de Jerusalém, Sociedade Bíblica Internacional e Editora Paulus, 1995.

    – Blau, Yitzchak; Body And Soul:Teh.iyyat ha-Metim and Gilgulim in Medieval and Modern Philosophy, publicado em The Torah u-Madda Journal (10/2001).

    – Charlesworth, James H.; Old Testament Pseudoepigrapha, vol. I, Doubleday, 1983.

    – Ehrman, Bart D.; Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium, Oxford University Press, 2001.

    – Neusner, Jacob; Introdução ao Judaísmo, Imago, 2004.

    – Raphael, Simcha Paul; Jewish View of the Afterlife, Aronson, 2004.

    – Reddish, Mitchell G., Apocalytiptic Literature: A Reader [Literatura Apocalíptica: um Manual de Leitura], Hendrickson Publishers, Inc., 1995.

    – Schweitzer, Albert; The Quest of the Historical Jesus [A Busca do Jesus Histórico], Acessado em 10/09/2009 no portal Early Christian Writings.

    – Tricca, Maria Helena de Oliveira (compiladora); Apócrifos – Os proscritos da Bíblia, tradução do alemão de Ivo Martinazzo, vol. I e III, Ed. Mercuryo, 2003.

    Para acessar

    Jewish Eschatology, acessado em 05/10/2013.

    Rabbi scheinerman – After life, acessado em 05/10/2013.

    Ser judio – Vida y Muerte, acessado em 05/10/2013.

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